
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 22/10/2025, às 09h22
Quando Donald Trump iniciou a guerra comercial com a China em 2018, muitos acreditaram que a medida reverteria a desindustrialização americana e recuperaria empregos perdidos para o gigante asiático. Seis anos depois, com a retomada de sua retórica agressiva — agora ampliada a parceiros como Brasil e Índia — o resultado é o oposto: os Estados Unidos não apenas perdem economicamente, mas também se isolam estrategicamente.
A lógica é simples. A China é hoje o maior ecossistema industrial do planeta, o único capaz de produzir, dentro de suas fronteiras, praticamente todos os componentes de qualquer produto. Ao impor tarifas sobre produtos chineses, Washington atinge o próprio consumidor. Cada aumento tarifário é repassado à inflação interna, corroendo o poder de compra da classe média norte-americana. O resultado é um país mais caro e menos competitivo.
Desde 2018, Pequim reagiu com pragmatismo: diversificou mercados, fortaleceu o comércio com o Sul Global e consolidou uma rede de parcerias que vai da Ásia à América Latina. O novo ciclo de tarifas não isola a China — isola os Estados Unidos, que superestimam seu poder num mundo já multipolar. Ao transformar o comércio em campo de batalha, Trump mina a própria ideia de liderança americana.
O problema, porém, não é exclusivo dos EUA. O Brasil, por sua vez, revela uma cegueira estratégica ainda mais preocupante. Enquanto a Europa reconhece sua “falta de expertise sobre a China”, como apontou recentemente a pesquisadora alemã Gesine Weber, em seu artigo “Europe’s transatlantic China challenge”, o Brasil sequer formula a pergunta. Somos um país que se diz independente, mas terceiriza o pensamento. Nossas universidades quase não estudam a China, nossos meios de comunicação reproduzem narrativas de Washington e parte da elite econômica busca aprovação em Nova York antes de investir em Xangai.
Essa dependência intelectual é um prolongamento da dependência econômica. Repetimos teses alheias como verdades universais e ignoramos que compreender a China não é aderir a ela — é compreender o século XXI. Sem entender a lógica civilizacional chinesa, baseada na harmonia, na continuidade e no pensamento relacional, o Brasil se condena à irrelevância estratégica.
Enquanto Índia, Indonésia e África do Sul constroem suas próprias leituras sobre a ascensão chinesa, o Brasil limita-se a reagir ao que lê no Financial Times, New York Times, Washington Post, Le Figaro etc. Continuamos reféns da visão transatlântica da Guerra Fria, confundindo alinhamento com segurança e dependência com prestígio. É uma postura que nos impede de perceber o real movimento da história: a emergência de uma ordem multipolar, com a China e o Sul Global no centro das transformações.
Trump, ao erguer muros tarifários, e o Brasil, ao erguer muros mentais, cometem o mesmo erro: interpretar o mundo novo com categorias antigas. Um se fecha ao comércio; o outro, ao conhecimento. Ambos renunciam à lucidez estratégica necessária para navegar o século XXI.
A verdadeira soberania começa pelo pensamento. Enquanto os Estados Unidos tentam impor tarifas ao inevitável e o Brasil insiste em reproduzir ideias importadas, a China segue construindo pontes — comerciais, tecnológicas e civilizacionais — com aqueles dispostos a compreender, e não apenas julgar, o novo equilíbrio global.
O custo dessa miopia é alto: para os Estados Unidos, perda de liderança; para o Brasil, perda de relevância. Num mundo de interdependências, quem levanta muros acaba prisioneiro das próprias ilusões.

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