
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 16/07/2025, às 04h22
Quando Donald Trump anunciou, em 2025, a re-imposição de tarifas sobre produtos chineses, muitos analistas previram o colapso da economia chinesa ou um recuo estratégico de Pequim. A realidade, no entanto, mostrou um cenário oposto: o país respondeu com notável resiliência, confiança e coesão interna. A recente ameaça feita pelo presidente Trump — agora reeleito e com novo mandato iniciado em 2025 — de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros oferece um contraste revelador entre duas nações em seus mecanismos de defesa econômica e maturidade política.
Três características fundamentais marcaram a resposta chinesa: em primeiro lugar, uma resiliência popular baseada na convicção de que o país seguia o caminho certo. Houve um reconhecimento tácito e generalizado de que as reformas estruturais e o esforço produtivo nacional colocavam a China numa trajetória de desenvolvimento que não seria revertida por pressões externas. A confiança do povo chinês em sua própria capacidade de superação econômica — mesmo diante de obstáculos impostos pela maior potência global — mostrou a força de uma sociedade coesa em torno de um projeto nacional.
Em segundo lugar, observou-se um apoio claro e racional ao governo. A população chinesa, independentemente de preferências individuais, compreendeu que o Estado dispunha dos instrumentos necessários — tanto políticos quanto intelectuais — para conduzir o país assertivamente diante da agressividade comercial norte-americana. O presidente chinês, longe de ser desafiado internamente nesse episódio, foi reconhecido como a liderança legítima para organizar a resposta. A confiança no capital intelectual do Partido Comunista Chinês e nos órgãos de planejamento estratégico foi determinante para a manutenção da estabilidade social e do moral nacional.
O terceiro ponto foi a união nacional em torno de um princípio de reciprocidade. Em contextos de crise, a China mobiliza sua população não apenas com narrativas de vitimização, mas com o apelo a uma responsabilidade coletiva: o país está sendo atacado e, portanto, exige-se uma resposta à altura — firme, racional e, sobretudo, unificada. Contentes e descontentes com a administração atual, todos se alinharam ao imperativo de proteger os interesses da nação.
No Brasil, por outro lado, a recente ameaça de Trump gerou, não uma resposta unificada, mas um espetáculo de polarização. A taxação de 50% sobre produtos brasileiros — que, em essência, se assemelha a um embargo econômico, dada sua capacidade de inviabilizar o acesso ao mercado norte-americano — foi recebida, em muitos setores, com oportunismo político. Em vez de compreenderem o episódio como um ataque à soberania e ao esforço produtivo nacional, líderes de diferentes espectros ideológicos tentaram instrumentalizar a crise para “lacrar” — ora condenando o governo federal com sarcasmo, ora minimizando a gravidade do gesto externo para alimentar antagonismos domésticos.
O que o Brasil revela, nesse episódio, é a ausência de um projeto nacional minimamente compartilhado. A direita vê na medida uma oportunidade para deslegitimar o governo federal. A esquerda, por sua vez, hesita entre defender a indústria nacional ou culpar as gestões anteriores por vulnerabilidades estruturais. Em nenhuma das correntes, observa-se o mesmo senso de responsabilidade coletiva que permeou a reação chinesa. Falta, em essência, uma visão de Estado que transcenda o ciclo eleitoral.
A gravidade dessa fragmentação torna-se ainda mais evidente quando se observa que, nem mesmo o Irã — país com um regime frequentemente contestado interna e externamente, submetido a sanções e confrontos militares — respondeu com tamanha desarticulação às agressões externas. Mesmo durante os recentes ataques israelenses, que acirraram o sentimento nacionalista, setores tradicionalmente críticos ao governo iraniano demonstraram postura patriótica, priorizando a defesa nacional em vez de disputas internas. Essa comparação revela um dado alarmante: a reação brasileira foi, em termos de maturidade política e de coesão nacional, inferior à de um país amplamente estigmatizado no Ocidente. Trata-se de um sintoma preocupante sobre a fragilidade do sentimento de nacionalidade e sobre a dificuldade do Brasil em reconhecer, nos momentos cruciais, que a união em torno do interesse coletivo deve prevalecer sobre os antagonismos circunstanciais.
Em tempos de crescente instabilidade geoeconômica, a comparação entre Brasil, China e até mesmo o Irã evidencia que o poder não reside apenas na economia ou no arsenal diplomático — mas na capacidade de produzir coesão interna. A China, mesmo diante da guerra comercial, consolidou sua trajetória de afirmação global. O Irã, sob ataque, preservou um nacionalismo resiliente. O Brasil, ao contrário, ainda vacila entre a fragmentação doméstica e a incapacidade de construir uma resposta nacional à altura dos desafios impostos pelo sistema internacional. E com isto, Trump aplica o velho adágio: dividir para conquistar.

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