
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 03/12/2025, às 11h13
A história das grandes potências ensina que o momento de maior perigo não é o da ascensão, mas o do declínio, quando a perda silenciosa de legitimidade é mascarada por demonstrações exuberantes de força. Os Estados Unidos encontram-se precisamente nesse estágio: uma potência que ainda detém poder material formidável, mas cujo imaginário político, coesão interna e capacidade de liderança global foram corroídos por décadas de polarização interna, erros estratégicos e uma incapacidade estrutural de acomodar um mundo que deixou de orbitá-lo.
O problema, porém, não é apenas a erosão de poder; é a erosão de orientação. A política norte-americana tornou-se refém de ciclos presidenciais que, a cada quatro anos, produzem projetos de governo que não se apresentam como administrações, mas como cruzadas, movidas por uma pulsão quase messiânica de “corrigir” o rumo da república e reconfigurar o mundo de acordo com convicções ideológicas voláteis. O resultado é um sistema que alterna, com velocidade devastadora, entre intervenções moralistas e isolacionismos rancorosos, criando uma política externa errática, desprovida de continuidade estratégica e profundamente corrosiva para a ordem internacional.
A atual crise na Venezuela é apenas o mais recente sintoma dessa instabilidade. A decisão norte-americana de fechar unilateralmente o espaço aéreo venezuelano — sem consulta regional, sem autorização multilateral, e sem definição clara de parâmetros jurídicos — constitui uma ruptura preocupante com os princípios mais elementares do direito internacional. O combate ao narcotráfico é uma demanda legítima, crucial e urgente, mas utilizá-lo como fundamento para medidas que se aproximam perigosamente de atos de hostilidade interestatal equivale a transformar uma tragédia social em justificativa para o exercício arbitrário do poder.
O duplo padrão torna-se ainda mais evidente quando se observa a divergência entre as expectativas normativas impostas aos demais e a liberdade com que Washington se permite atuar. Em um mundo no qual a Rússia é sancionada por violar soberanias e a China é denunciada por suas ambições geoestratégicas, os Estados Unidos continuam a operar em uma zona cinzenta de excepcionalismo, na qual suas ações unilaterais são revestidas de legitimidade moral automática.
O resultado desse comportamento é devastador para o próprio Ocidente. A narrativa de universalismo democrático — que por décadas sustentou sua autoridade — tornou-se insustentável diante de um histórico recente marcado por guerras ilegais, sanções devastadoras, intervenções desproporcionais e, mais recentemente, sinais de hostilidade pré- emptiva contra Estados considerados “indesejáveis”.
Esse ambiente de excepcionalismo agressivo é agravado pelo fato de que os Estados Unidos atravessam uma crise existencial doméstica que compromete sua capacidade de atuação racional. O risco maior, porém, é outro: um presidente de mandato único — movido por urgência histórica e projeto ideológico — pretende redesenhar de maneira irreversível o ambiente internacional, sem qualquer responsabilidade por suas consequências de longo prazo. Trump oferece o exemplo mais dramático: seu retorno ao poder inaugurou um ciclo de revisionismo doméstico e isolacionismo assertivo que não apenas fragiliza instituições internas, mas também a própria ordem internacional que os Estados Unidos criaram e da qual se beneficiaram amplamente. Esta fragilização permite à China consolidar sua posição como alternativa estrutural de governança mundial. O paradoxo é cruel: na tentativa de conter a ascensão da China, os Estados Unidos a aceleram.
Os Estados Unidos ainda podem desempenhar um papel central nesse processo, mas apenas se reconhecerem que o poder, quando não regulado por autocontenção e responsabilidade, não é liderança — é decadência. Ao que tudo indica, este reconhecimento não acontecerá tão cedo.

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