
por Marcelo Emerson
Publicado em 04/07/2024, às 06h00
Tenho especial interesse na relação que existe entre a criatividade artística e as necessidades mercadológicas da arte.
Às vezes, temos uma visão romantizada do artista, como aquela figura do gênio incompreendido que passa seus dias na pobreza semarredar pé da sua integridade artística.
Hoje este tipo está cada vez mais raro, já que a lógica das faculdades de propaganda e marketing tomou completamente todo o segmento da produção artística.
O sujeito pode estar vendendo seus quadrinhos numa pracinha de cidade do interior, mas já quer saber qual a posição de mercado que sua “branding” tem na indústria de entretenimento.
Tenho forte rejeição por esse pessoal que se entusiasma facilmente por jargões farialimescos. Um porre!
Quando isso invade o mundo artístico, é como uma traição.
Não quero dizer com isso que o artista não deve lucrar com sua arte. Também não saio por aí gritando: “fulano se vendeu”.
No sistema econômico em que vivemos, é preciso seguir as regras formais e informais de geração e circulação de riquezas.
Mas o pêndulo foi demasiadamente para a lógica de mercado e teima em não retornar para o equilíbrio com a criatividade artística.
Estou próximo do cenário da música, por isso trato aqui especialmente desta forma de arte. Escrevo sem receio algum: a maior parte do que se vende hoje como arte musical não passa de jingle para publicidade de margarina ou de uma roupa qualquer. Tanto faz.
O que pretendo destacar aqui é que o momento da criação artística deve ser algo próximo do sagrado.
O ato criativo não pode ser invadido por profissionais de marketing, divulgadores de mídias sociais ou empresários.
Pronta a arte, depois entram os mercadores. Não antes.
Há anos vejo artistas irritados tentando a todo custo provar que “ser artista é um trabalho como qualquer outro”. Discordo com veemência. Não! Artista não é uma profissão como qualquer outra. Profissional de marketing é uma profissão como qualquer outra. Empresário também.
Publicitários, marqueteiros e empresários entendem para onde as massas olham e dão a elas exatamente o que querem ver; artistas dão às massas um novo olhar.
O artista é aquele ser sensível capaz de perceber o mundo de maneira tão singular, que a expressão das suas ideias em forma de arte revela uma visão única da realidade atual e/ou histórica.
Para concluir esta coluna me apoio nos ombros de um gigante, Ariano Suassuna, que disse o seguinte: “Arte para mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte para mim é missão, vocação e festa”.
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