
por Marcelo Emerson
Publicado em 18/06/2026, às 10h26
A Copa do Mundo de 2026 começou e bilhões de pessoas estão diante de suas telas acompanhando o maior espetáculo esportivo do planeta. Poucos, entretanto, se recordarão de que o torneio nasceu do sonho de um homem profundamente influenciado por valores cristãos: Jules Rimet.
O dirigente francês foi formado sob a influência do pensamento social cristão. Rimet acreditava que o esporte poderia servir como instrumento de aproximação entre povos e nações. Em uma Europa traumatizada pela Primeira Guerra Mundial, sua proposta parecia ousada: reunir países rivais em uma competição capaz de estimular respeito mútuo, convivência e fraternidade.
Quase um século depois, sua criação permanece como um dos raros eventos capazes de mobilizar a humanidade inteira. Durante algumas semanas, idiomas, culturas e fronteiras parecem perder importância diante da paixão comum pelo futebol.
Mas a Copa de 2026 também revelará um paradoxo que provavelmente chamaria a atenção de seu criador.
Segundo entidades internacionais que monitoram a liberdade religiosa, ao menos 14 seleções classificadas para o Mundial representam países onde cristãos enfrentam diferentes níveis de pressão, discriminação ou violência. Entre eles estão Arábia Saudita, Irã, Iraque, Argélia, Marrocos, Turquia, Egito, Catar, Jordânia, Tunísia e Uzbequistão.
Trata-se de uma realidade complexa e heterogênea. Em alguns desses países, igrejas enfrentam monitoramento estatal ou severas restrições burocráticas. Em outros, a conversão ao cristianismo pode acarretar exclusão social, perda de vínculos familiares, perseguições ou limitações à liberdade individual.
O contraste histórico é inevitável. O torneio concebido por um homem inspirado por ideais cristãos de fraternidade reunirá seleções oriundas de lugares onde milhões de cristãos ainda enfrentam dificuldades para exercer livremente sua fé.
Entretanto, talvez esse fato não represente o fracasso da visão de Jules Rimet, mas justamente sua relevância permanente. A Copa do Mundo não elimina perseguições religiosas, não resolve conflitos e tampouco transforma regimes políticos. Nenhum gol é capaz de garantir liberdade de consciência. Ainda assim, o torneio cria um espaço singular onde nações profundamente distintas aceitam conviver sob as mesmas regras e compartilhar o mesmo palco.
Talvez resida aí a verdadeira grandeza da ideia de Rimet. A Copa não esconde as diferenças do mundo; ela as coloca lado a lado. E, ao fazê-lo, recorda algo que continua atual em tempos de intolerância e polarização: a dignidade humana não deveria depender da nacionalidade, da cultura ou da religião professada por alguém. Quase cem anos depois, esse continua sendo o legado mais valioso do homem que sonhou unir os povos por meio de uma bola.
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