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COLUNA

Quem defende o cidadão endividado?

Imagem: Reprodução/Freepik
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Marcelo Emerson

por Marcelo Emerson

Publicado em 04/06/2026, às 17h25


O Brasil vive uma contradição que deveria preocupar autoridades, economistas e toda a sociedade. Enquanto os grandes bancos acumulam lucros bilionários, milhões de brasileiros afundam em dívidas que parecem não ter fim.

Os números impressionam. Cerca de 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de endividamento. Em muitos lares, a renda mensal já não é suficiente para cobrir despesas básicas e parcelas de empréstimos, financiamentos e cartões de crédito.

O problema não está na existência do crédito, mas em até que ponto o sistema financeiro brasileiro está contribuindo para a prosperidade das famílias ou se beneficiando de sua fragilidade financeira.

Crédito consignado, empréstimos pessoais, financiamentos imobiliários, cheque especial e cartões de crédito são ofertados diariamente ao consumidor. Muitas vezes, com poucos cliques ou uma simples ligação telefônica. O acesso é fácil. Já a saída da dívida costuma ser longa, dolorosa e cara.

Nesse ponto, surge um argumento frequentemente utilizado pelas instituições financeiras: o de que cada cidadão deve ser responsável pelas dívidas que assume. Evidentemente, a responsabilidade individual existe e não pode ser ignorada. Porém, essa explicação isolada parece insuficiente diante da realidade. Afinal, seria justo atribuir toda a culpa ao consumidor quando o crédito é oferecido de forma agressiva, incessante e sedutora sem que o contrato seja avaliado em seus pormenores?

Todos os dias, milhões de brasileiros são bombardeados por propagandas que incentivam financiamentos, empréstimos e antecipações de renda. Aplicativos oferecem dinheiro instantâneo. Bancos ligam, enviam mensagens e disponibilizam limites pré-aprovados.

Quando a dívida surge, entretanto, o discurso muda e a responsabilidade recai exclusivamente sobre quem aceitou a oferta. É uma lógica curiosa: estimula-se o consumo do crédito em massa, mas individualiza-se integralmente a culpa pelo endividamento.

Enquanto isso, os resultados financeiros do setor bancário seguem batendo recordes. Os grandes bancos brasileiros acumulam lucros anuais que alcançam dezenas de bilhões de reais, consolidando um dos sistemas financeiros mais rentáveis do mundo.

Há uma desproporção de forças entre bancos e consumidores. De um lado, departamentos jurídicos robustos, influência institucional, especialistas, tecnologia e enorme poder econômico. Do outro, cidadãos frequentemente sem orientação financeira adequada, pressionados pela corrosão dos salários, pela inflação e pelo elevado custo de vida.

A pergunta que permanece é simples: quem faz o lobby do cidadão endividado?

Quem ocupa os espaços de poder para defender aposentados e servidores públicos presos a sucessivos consignados? Quem representa trabalhadores que comprometem parcela crescente da renda com juros? Quem fala pelas famílias que veem seus sonhos transformados em boletos?

O debate sobre o superendividamento não é apenas econômico. É social, jurídico e humano. Um país não se fortalece quando o crédito se transforma em armadilha. O verdadeiro desenvolvimento exige equilíbrio entre a saúde das instituições financeiras e a dignidade financeira das pessoas.


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