
por Mara Machado
Publicado em 19/09/2025, às 08h30
O Sistema Único de Saúde (SUS) completa 35 anos neste mês de setembro, dia 19. É uma data simbólica, que deve ser celebrada não apenas como conquista, mas também como oportunidade de reflexão e críticas construtivas. Criado como um sistema público, universal e gratuito, o SUS é, sem dúvida, um dos maiores marcos sociais da história do Brasil — e sua manutenção exige vigilância, inovação e coragem política.
Há avanços que merecem ser reconhecidos. O Programa Nacional de Imunizações (PNI), referência internacional, salvou milhões de vidas. A política de enfrentamento à AIDS, pioneira ao oferecer tratamento gratuito e de qualidade, tornou-se modelo para outros países. A redução do impacto de doenças infecciosas, ao longo das últimas décadas, também contribuiu decisivamente para o aumento da expectativa de vida dos brasileiros.
No entanto, celebrar conquistas não significa ignorar os desafios. O SUS ainda carece de modernização estrutural e de um compromisso estratégico de longo prazo. Como bem destacou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em entrevista recente, é preciso pensar em um “SUS pós-pandêmico”, preparado para lidar com emergências globais, mudanças climáticas e doenças crônicas. A leitura é correta — mas o ponto central é: o que estamos fazendo, de forma concreta, para transformar essa visão em realidade? Cinco anos após a covid-19, estaríamos de fato mais preparados para uma nova crise sanitária?
Modernizar o SUS não é uma opção, é uma necessidade urgente. Isso significa tratar a saúde como política de Estado, e não como bandeira de ocasião pensando nas próximas eleições. É preciso garantir financiamento sustentável, metas claras, gestão baseada em evidências e mecanismos transparentes de acompanhamento. Sem isso, o sistema seguirá preso ao improviso, apagando incêndios.
Outro dilema inevitável é o custo crescente da saúde. O envelhecimento populacional e a incorporação de novas tecnologias elevam as despesas em ritmo acelerado. Como equilibrar a universalidade do acesso com a equidade no tratamento? Como reduzir a distância, hoje gritante, entre o que é oferecido pelo SUS e pelo sistema privado? Garantir que todo cidadão tenha acesso às inovações em saúde é um desafio de justiça social, não apenas de gestão.
Também é preciso investir em pessoas. Modernizar equipamentos, digitalizar processos e ampliar a rede assistencial são medidas importantes, mas insuficientes sem gestores capacitados, comprometidos com um modelo de atenção mais integrado, resolutivo e sustentável. Formação de liderança, com alinhamento de objetivos, deve ser parte da agenda de modernização.
Em 35 anos, o SUS provou sua resiliência e relevância. Mas o futuro depende da nossa capacidade de transformá-lo continuamente. Não bastam discursos em tribunas nem promessas em entrevistas. O que está em jogo é a saúde de mais de 200 milhões de brasileiros. O SUS precisa de ação coordenada, investimento perene e compromisso político real.
Manter vivo esse legado significa garantir que ele continue sendo um instrumento de equidade, dignidade e cidadania. Para isso, é preciso coragem para enfrentar interesses imediatistas e visão de longo prazo para assegurar que, nas próximas décadas, o SUS seja não apenas resistente, mas também moderno, eficiente e justo.
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