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Saúde sustentável exige mais que remédios para emagrecer

Saúde sustentável exige mais que remédios para emagrecer - Imagem: Reprodução / Freepik
Saúde sustentável exige mais que remédios para emagrecer - Imagem: Reprodução / Freepik
Mara Machado

por Mara Machado

Publicado em 02/07/2025, às 09h27


É inegável que os recentes medicamentos para emagrecer, agonistas do receptor GLP-1, podem trazer benefícios expressivos à saúde. Uma parcela relevante da população obesa e com excesso de peso adota diferentes estratégias terapêuticas por anos e não consegue emagrecer de maneira sustentável. Ter mais um aliado terapêutico – e eficiente – é algo muito bem-vindo. As canetas emagrecedoras estão longe de ser a solução definitiva!

A obesidade representa um desafio mundial e, no Brasil, cresce em ritmo acelerado nos últimos anos. Quase 35% da população tem algum nível de obesidade, segundo o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), do Ministério da Saúde, divulgado no início do ano. O mais alto nível, a chamada obesidade mórbida, já atinge mais de 1,1 milhão de pessoas. E pior: o problema também avança na infância. Entre 5 e 10 anos de idade, mais de 340 mil crianças receberam o diagnóstico, aumentando o risco de conviver com a obesidade na vida adulta.

O impacto disso na saúde é gigantesco. Obesidade e excesso de peso figuram entre os principais fatores de risco para doenças graves e potencialmente fatais, como hipertensão arterial, infarto, AVC, diabetes tipo 2, doença renal crônica e alguns tipos de câncer. Só a hipertensão já afeta 30% dos brasileiros. O diabetes atinge 13 milhões, sendo 90% do tipo 2. E a doença renal crônica, quando requer diálise, já passa de 170 mil pessoas.

São enfermidades que provocam internações e requerem tratamentos contínuos e/ou de alto custo. Com isso, obesidade e excesso de peso se tornam pilares de sustentação de alguns dos maiores custos da saúde, desafiando a sustentabilidade do sistema e comprometendo o bem-estar da população.

O destaque que as canetas emagrecedoras vêm ganhando precisa estar acompanhado por uma discussão maior, que considere uma reformulação ampla das políticas públicas de saúde. Não basta tratar o obeso, precisamos pavimentar caminho para reduzir a chegada do problema às futuras gerações. É preciso inverter a curva.

Para promover uma saúde verdadeiramente sustentável, é preciso investir em medidas de prevenção contínua e estruturada, capazes de atingir toda a população, e não apenas quem já está doente. Isso envolve políticas intersetoriais que integrem saúde, educação, transporte, agricultura e planejamento urbano. Escolas com alimentação adequada e incentivo à atividade física, rotulagem clara de alimentos, restrições à publicidade de ultraprocessados, criação de espaços públicos seguros para o exercício: tudo isso custa menos do que tratar as complicações da obesidade no futuro.

A saúde sustentável precisa equilibrar três dimensões: valor em saúde, sustentabilidade econômica e justiça social. Isso significa focar em ações que melhorem a saúde da população de forma contínua, com uso racional de recursos e distribuição justa das soluções. A obesidade é um dos grandes testes desse modelo: ela desafia nosso compromisso com a prevenção, o acesso e a eficiência. Essas ações estruturais são também politicamente mais desafiadoras, o que reforça a importância do compromisso com políticas de longo prazo.

Mais do que uma nova classe de medicamentos, o que o Brasil precisa é de uma nova forma de pensar a saúde. Uma forma que vá além do tratamento e coloque a promoção da saúde no centro das decisões. Só assim será possível frear o avanço das doenças crônicas, aliviar o sistema de saúde e garantir qualidade de vida para as próximas gerações. A obesidade é um problema urgente, e a sustentabilidade do sistema, um imperativo. Que não faltem coragem e coordenação para enfrentar ambos.


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