
Por Mara Machado, CEO do IQG Publicado em 16/01/2026, às 10h10
Janeiro Branco costuma ser apresentado como um convite ao autocuidado, à escuta das emoções e ao equilíbrio individual. A intenção é boa, mas o discurso é confortável demais para um problema que já se tornou estrutural. Ansiedade e depressão não são apenas questões pessoais. São hoje um tema de saúde pública, de gestão do trabalho e de impacto direto sobre a economia do país.
O Brasil lidera os rankings globais de ansiedade e registra crescimento contínuo nos diagnósticos de depressão. Isso se reflete em afastamentos prolongados do trabalho, aumento das concessões de benefícios pelo INSS e queda de produtividade em praticamente todos os setores. Falar de saúde mental como se fosse apenas uma escolha individual é ignorar seus efeitos concretos sobre a sustentabilidade social e econômica.
Nos hospitais, esse impacto aparece de forma ainda mais clara — e mais grave. Pesquisa recente conduzida pelo Instituto Qualisa de Gestão (IQG) em nove hospitais privados mostrou perdas médias de produtividade de 27%, associadas às ausências e ao presenteísmo, quando profissionais adoecidos continuam trabalhando. O impacto financeiro anual ultrapassou R$ 22 milhões apenas nessas instituições. O dado mais preocupante, no entanto, está na assistência: profissionais com alto nível de burnout têm risco 2,2 vezes maior de cometer erros clínicos. Saúde mental, segurança do paciente e qualidade do cuidado estão diretamente conectadas.
Esses números desmontam a ideia de que basta “ensinar as pessoas a lidar melhor com o estresse”. Quando falamos de ansiedade, depressão e esgotamento, falamos de ambientes de trabalho mal organizados, jornadas excessivas, modelos de gestão que operam no limite e lideranças despreparadas para cuidar de pessoas. Transferir essa responsabilidade para o indivíduo é conveniente, mas não resolve o problema.
A resposta precisa ser institucional. O Estado precisa tratar saúde mental como prioridade estratégica, com políticas de prevenção, vigilância e cuidado contínuo. E as organizações, especialmente em setores críticos como a saúde, precisam assumir seu papel. Isso significa revisar carga de trabalho, estruturar apoio psicológico real, criar ambientes mais seguros e formar lideranças capazes de reconhecer sinais de esgotamento antes que eles se transformem em adoecimento, erro ou afastamento.
Investir em saúde mental não é custo. É estratégia. Ambientes de trabalho mais saudáveis reduzem afastamentos, aumentam engajamento, melhoram desempenho e diminuem riscos. Em última instância, tornam sistemas e organizações mais sustentáveis. Não há saúde sustentável sem pessoas sustentáveis.
Neste Janeiro Branco, talvez seja hora de mudar o convite. Menos discursos sobre autocuidado e mais responsabilidade de quem desenha políticas públicas, modelos de gestão e condições de trabalho. Saúde mental é um ativo coletivo. Ignorá-la custa caro — em dinheiro, em vidas e na qualidade dos serviços que sustentam a sociedade.
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