
por Kleber Carrilho
Publicado em 26/08/2023, às 06h52
Algumas pessoas me perguntam sobre como a Europa tem noticiado os escândalos de corrupção do governo anterior no Brasil. E, mesmo que a imprensa (principalmente a francesa e a portuguesa) fale algo sobre Bolsonaro e as joias, na maior parte do tempo, as notícias são outras.
Os europeus (e o restante do mundo) estão preocupados com a Amazônia, com a capacidade do Brasil de cumprir os acordos climáticos e, principalmente esta semana, com qual será o papel do país na tentativa dos BRICS de se contrapor à liderança política e econômica ocidental.
Por isso, os olhares sobre o nosso país estavam na presença de Lula na reunião na África do Sul, nas relações entre os líderes dos quatro países presentes e na proximidade com a Rússia. E, claro, uma das coisas que realmente importa para eles é a possibilidade de que o comércio entre os países do bloco ocorra sem a necessidade do dólar, com uma moeda (que pode ser virtual) ser composta por uma “cesta” das moedas dos países membros do acordo.
É, claramente, na possibilidade de comércio entre os BRICS sem a supervisão dos EUA que está o grande problema com o qual Joe Biden (e consequentemente os líderes da Europa, que dependem diretamente da liderança norte-americana na OTAN) tenta lidar, ao observar o presidente Lula e os outros mandatários que apostam nessa iniciativa, principalmente agora, com a notícia de expansão do bloco.
Há, para alguns, um risco de instabilidade no comércio internacional, sem um valor padrão de troca comercial. Porém, existe nesse projeto uma possibilidade evidente de que todos os países envolvidos, que hoje dominam mais de um quarto do comércio mundial (e provavelmente chegue agora a cerca de um terço), ganhem muito.
Portanto, é hora de cobrarmos o governo brasileiro para que todo esse projeto seja viável para o nosso país, e que o comércio com a China, que já é o mais importante para nós, não seja somente baseado na venda de produtos agrícolas e na compra de produtos industrializados, mas sim que possamos projetar uma reindustrialização que realmente possa nos colocar em uma posição em que os europeus não querem, ou seja, de concorrentes na venda de produtos com alto valor agregado.
Como um dos principais setores brasileiros, que fazia sucesso em diversos lugares do mundo desde meados do século passado, foi destruído de forma direta pela Lava Jato, também poderia ser fundamental a sua reorganização. Se você não sabe que setor é esse, é só dar uma olhada na presença internacional do nosso país pelo mundo e a competência que conquistamos com a construção civil.
Mas isso não pode ser discutido e planejado para daqui a dez. É necessário ter urgência para entender que papel teremos nessa nova organização do mundo. Afinal, se não pensarmos dessa forma, dificilmente sairemos do imbróglio econômico em que estamos neste momento.
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