
por Kleber Carrilho
Publicado em 08/10/2022, às 08h50
Quando Jair Bolsonaro foi eleito, em outubro de 2018, eu disse, em uma palestra, que o presidente é um personagem descartável para o projeto que representa.
Pouca gente entendeu. E eu novamente vou tentar explicar o que penso. O papel dele não é liderar um projeto político, mas sim ser porta-voz de ideias populares para que quem realmente desenvolve o projeto possa atuar.
A questão é que, para essas pessoas, ao ter liberdade para falar, com a possibilidade de usar a cadeira e a caneta a seu bel-prazer (ou dos filhos), Bolsonaro se aproxima de muitos riscos.
E por que ele se mantém no poder? Porque, para os seus patrocinadores políticos, foi importante mantê-lo até aqui, para fazer com que as redes e os militantes não arrefecessem os ânimos.
Agora, porém, as coisas mudam de figura. Depois de uma eleição para o Congressoe para os governos do Estado em que o bolsonarismo e o aliado Centrão atropelaram os progressistas, há o risco de que Bolsonaro fique muito forte, se for reeleito.
E por isso tem gente perdendo o sono. Quem? Um deles é Valdemar Costa Neto, o poderoso “dono” do Partido Liberal, que aceitou receber o presidente nestas eleições.
Valdemar, também conhecido como Boy na sua região de origem, Mogi da Cruzes, tem a Presidência do PL há bastante tempo, mesmo com acusações de participação em diversos casos de corrupção, como o Mensalão. Negociou com todos os governos, brigou e até foi preso, mas nunca deixou de ter o controle sobre a sigla.
Agora, ele tem o maior partido na Câmara e no Senado, mas corre um grande risco. Se Bolsonaro for reeleito, ele vai estar seguro no posto? O que garante que o presidente não vai colocar um dos filhos (ou outra pessoa de sua influência) para liderar o PL? Por que ele não faria o que tentou (e quase conseguiu) fazer no PSL?
Valdemar tem duas opções agora. Ser leal ao presidente e correr os riscos ou influenciar os líderes regionais para se sentar com Lula na noite de 30 de outubro e colocar as cartas na mesa. Com o ex-presidente, Valdemar sabe que tem poucos riscos, afinal trabalhou com ele diretamente por oito anos, e mais oito nos governos Dilma e Temer, herdeiros de Lula.
Com o petista na Presidência e quase uma centena de deputados, Valdemar vai definir alguns nomes na Esplanada dos Ministériose nas estatais, vai ter na mão emendas e agendas do Congresso, comissões e quem sabe a presidência da Câmara ou do Senado para um dos seus.
Por isso, além dele, vários outros caciques menores estão passando pelo mesmo dilema: “será que não vale a pena descartar Bolsonaro?”
Do outro lado, está Lula, pronto para se sentar à mesa com os antigos companheiros do PL, do PP e de Republicanos, que na época era PRB. Além, é claro, do MDB, que perdeu o tamanho, mas não o estilo.
Para completar o cenário ideal para Lula, se tudo der errado em seu governo, que tende a ser o último, toda a culpa vai ser do Congresso, que não tinha a maioria composta por seus apoiadores.
E vamos tocando a vida.
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