
por Henrique Tatto
Publicado em 30/09/2024, às 10h54
Na última segunda-feira (23), os candidatos à Prefeitura de São Paulo se reuniram para mais um debate, desta vez promovido pelo Grupo Flow. A organização do evento impôs uma série de regras, assinadas previamente pelos candidatos, em resposta aos incidentes dos debates anteriores, marcados por provocações, apelidos pejorativos, acusações infundadas e até agressões físicas.
No entanto, mesmo com essas diretrizes, o candidato do PRTB, Pablo Marçal, esperou até as considerações finais, como um lobo em pele de cordeiro, para fazer o que sabe de melhor: atacar verbalmente seus adversários — ou melhor, inimigos políticos, como parece vê-los. O desrespeito foi tamanho que Marçal acabou expulso do debate por violar as regras e ignorar as três advertências do mediador Carlos Tramontina. Em seguida, seu assessor e sócio, Nahuel Medina, desferiu um soco no marqueteiro do prefeito Ricardo Nunes, após uma provocação que envolveu risos e um tapa no celular de Nahuel. A agressão deixou o marqueteiro com lesões graves, incluindo um possível descolamento de retina, segundo a assessoria de imprensa de Nunes.
Esse episódio lamentável é apenas mais um reflexo de uma escalada de ódio que vem se intensificando na política brasileira. Mas, para entender como chegamos a esse ponto, é necessário voltar às raízes do problema. Tudo começou com o deputado federal Aécio Neves, que, após sua derrota no segundo turno das eleições de 2014 para Dilma Rousseff, decidiu contestar o resultado das urnas e questionar a legitimidade do processo democrático, assim como Bolsonaro em 2022. Esse gesto deu início ao que hoje conhecemos como a "política do ódio".
Logo após a derrota, a internet foi inundada com "memes" misóginos, ataques à aparência física de Dilma e xingamentos que culminaram no impeachment da ex-presidente, por simplesmente ter desavenças com o Legislativo. Usaram como justificativa as chamadas "pedaladas fiscais", uma prática que era aceita pelos tribunais e que outros presidentes já fizeram, mas nenhum deles foi impedido. A manobra foi liderada por Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados, que posteriormente foi preso em umas das fases da Lava Jato por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Após o mandato de Michel Temer, o Brasil elegeu Jair Bolsonaro, graças à prisão de Lula, orquestrada pelo então juiz Sérgio Moro — que mais tarde se tornaria ministro do governo Bolsonaro. O mesmo juiz que prendeu injustamente o candidato que estava em primeiro lugar nas pesquisas eleitorais, tornou-se aliado e parte do governo do principal adversário de Lula. Apenas coincidência… Digo injustamente com todas as letras, pois foi confirmado pelo The Intercept que haviam trocas de mensagens e o conluio escancarado dos procuradores da Lava Jato com Sérgio Moro, num processo sem absolutamente qualquer prova, em que Lula tinha que ter o ônus de provar não ser culpado, e não quem estava o acusando. Eventualmente, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a parcialidade de Moro no julgamento de Lula, o que invalidou a condenação.
O legado de tudo isso é o clima de ódio e polarização que hoje domina a política brasileira. O comportamento de Pablo Marçal no último debate é uma extensão desse ambiente tóxico, onde mentiras e ataques pessoais se tornaram ferramentas políticas. Marçal chegou a usar um processo de outro Boulos — Guilherme Bardauil Boulos, candidato a vereador — para difamar Guilherme Boulos, candidato à Prefeitura. Marçal o chamou de “cheirador” e fez gestos passando o dedo no nariz, quando na verdade, o outro Boulos é que era réu em processo por consumo de drogas em 2001. Além disso, ele tentou em uma de suas palestras, operar um milagre e fazer uma cadeirante andar novamente. E é óbvio que não deu certo. Atacou católicos e evangélicos, mas mudou a postura agora para ganhar votos.
O que vimos no debate é a personificação de um estilo de política agressivo e violento, reminiscente tanto de Aécio quanto de Bolsonaro. A pergunta que fica é: esse é o tipo de liderança que queremos para São Paulo, a maior metrópole do país? É esse tipo de princípio ético de comportamento o mais adequado para um representante? Marçal é a escória da sociedade. É um ótimo discípulo de Bolsonaro, só que numa versão ainda pior. Não tem graça no que ele faz ou fala, é assunto sério. A única utilidade que terá nessa eleição, será nos informar qual a porcentagem de ignorantes que temos em São Paulo. O ódio na política não nasceu ontem, mas foi cultivado ao longo dos anos, e agora colhemos os frutos de uma era de divisões e ataques.

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