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Quer tomar aonde?

Imagem ilustrativa. - Imagem: Reprodução | Freepik
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Marcelo Arbex

por Marcelo Arbex

Publicado em 11/05/2024, às 06h00


Esse é um artigo sobre a esquerda e a direita. E não é nada disso que vocês possam estar antecipando, não quero falar aqui de orientações políticas ou pensamentos filosóficos abstratos ou mesmo de disputas de poder entre pessoas, partidos e nações.

Esse é um artigo para expor as contradições cotidianas que a nossa querida mãe gentil, a pátria amada Brasil nos apresenta incansavelmente, com frequência cada vez maior. Vamos aos fatos.

Há algum tempo atrás, uma renitente dor nas costas que me acompanha desde sempre resolveu novamente dar o ar da sua graça. Ou melhor dizendo, da sua desgraça, para azar meu. Desgraça principalmente por aquela desagradável falta de molejo e de movimentos mais naturais que a dor nos impõe, e faz com que fiquemos eretos o tempo todo, só conseguindo virar o corpo inteiro de uma vez, ora para um lado, ora para outro, como verdadeiros robôs de lata.

Na crise, consultei um médico. Ele me receitou a aplicação de uma injeção, algo como um anti-inflamatório ou anestésico. Fui até uma farmácia, levando o pedido médico, e o farmacêutico colocou na minha frente um verdadeiro questionário, várias vias, a ser preenchido por determinação da Anvisa – a agência nacional de vigilância sanitária. Por se tratar de um remédio só administrado sob prescrição médica, é compreensível.

Ainda que exageradamente longo, e dúbio em alguns quesitos como se alguém estivesse duvidando do pedido apresentado, do médico, de mim e até da minha própria dor. Mas se tem que ser assim, paciência.

Preenchi tudo que vi ali para ser preenchido e entreguei ao farmacêutico. Até que veio a pergunta fatal. O farmacêutico olhou diretamente nos meus olhos e disparou: esquerda ou direita? Eu, com muita dor e sem querer discutir política ali, naquele momento, num balcão de farmácia, retruquei desentendido:

Esquerda ou direita o que?

Você quer tomar a injeção na nádega esquerda ou na nádega direita? 

E eu ainda sem entender: Como assim?

E o farmacêutico com toda tranquilidade me explica: É que é preciso registrar aqui no documento de que lado você vai tomar a injeção, nádega esquerda ou direita, é uma exigência da Anvisa.

Naquele instante, entre perplexo e pasmo, finalmente entendi. Como parte do movimento civilizatório levado a cabo no país de cima para baixo por meio de milhares de editais, leis, ordens e portarias, a Anvisa achou por bem saber de que lado da bunda cada cidadão prefere tomar.

E imediatamente pensei, maravilha, chegamos ao ápice do desenvolvimento humano, social e de cidadania, aqui por estas terras tupiniquins. E por alguns segundos imaginei que não tínhamos mais problemas no país. Já estava tudo resolvido com a educação, o emprego, a saúde, a segurança, os transportes, a infraestrutura. Supus que todas as grandes reformas essenciais à ordem e ao progresso do Brasil também já haviam sido concluídas. Assim, é claro, não restava mais nada ao poder público a não ser se preocupar com os mínimos detalhes, no caso com as nádegas de cada um de nós.

Mas a ilusão não durou muito. Logo despertei para o mundo real da farmácia, bem ali na minha frente. E mais uma vez despertei para a contraditória realidade de um país que ainda sem ter feito o mínimo, o fundamental, o básico necessário, adota procedimentos que fariam inveja às mais avançadas sociedades do planeta.

E assim, medicado, saí da farmácia conjecturando no caminho para casa, será que eu ouvi direito ou havia mais alguma coisa naquela seringa que eu não sei? Porque ou isso foi uma alucinação ou é mesmo o fim da picada.

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