
por Maria De Carli
Publicado em 13/07/2024, às 06h00
A França e o Reino Unido vivem contextos políticos e econômicos diferentes, porém, possuem dois fatores eleitorais em comum. Primeiro, as recentes vitórias da esquerda como força principal para assumir seus respectivos governos, e segundo, o crescimento da extrema-direita. Mesmo que em ambos os países está não tenha obtido a maioria necessária para assumir um governo, o seu crescimento foi inegável e abalou o status quo político.
No Reino Unido, pela primeira vez em 14 anos, o Partido Trabalhista venceu o Partido Conservador, garantindo uma maioria de cadeiras no Parlamento e consolidando o Primeiro-Ministro Keir Starmer como o Chefe do Governo britânico.
Engana-se quem achar que os Trabalhistas ganharam apenas por mérito próprio. Os principais fatores que explicam essa formidável vitória para os Trabalhistas são, sobretudo, uma insatisfação com a administração conservadora que não estava sabendo endereçar os problemas da população, principalmente em relação a uma crise econômica sem precedentes, uma inflação que bateu dois dígitos em 2022, crises no sistema de saúde, e a necessidade de reformas no setor público.
O Brexit, principal proposta responsável por fazer os Conservadores se manterem no poder por mais alguns anos, não foi suficiente e entregou pouco, tanto que desde o referendo que o consagrou vencedor, o Reino Unido assistiu incrédulo a troca de nada menos que 5 Primeiros-ministros em 8 anos, sem chegar a uma solução para os reais problemas da população.
Quem ganhou destaque na corrida eleitoral britânica foi Nigel Farage, a figura que encabeçou a campanha a favor do Brexit em 2016, e que gahou o apelido de "pai do Brexit", um queridinho da extrema-direita populista. Sua criação mais recente, o Partido Reformista, conseguiu 4 assentos no Parlamento Britânico, pode parecer pouco, porém, em números absolutos foi o terceiro mais votado do país, fazendo a extrema-direita crescer de 2% para 14% desde as últimas eleições.
No Reino Unido, o momento é dos moderados, mas é recomendável que todos fiquem de olhos bem atentos, pois o apelo de Farage é muito forte com a classe trabalhadora do país, que não se reconhece no discurso muitas vezes humanista e internacionalista do Trabalhista, Starmer. A ascensão de políticos populistas reverteu a lógica de um eleitorado que anteriormente votava nos Trabalhistas, mas agora, votam na extrema-direita.
Na França, para a surpresa da grande maioria, Marine Le Pen não conseguiu assentos suficientes para garantir seu protegido Jordan Bardella como Primeiro-Ministro. Macron, depois de muito esforço, conseguiu um acordo mundano com a extrema-esquerda e assim eliminar Le Pen. Dos 4 partidos que o bloco da esquerda possui, quem levou o melhor resultado foi Mélenchon, líder do partido de extrema-esquerda que em muitos aspectos se assemelha ao discurso populista de Le Pen.
Dessas eleições, podemos concluir que os extremos estão indo bem. Le Pen veio para ficar, e, apesar de não ter atingido a maioria dos assentos, o crescimento do seu partido é real e ameaça os moderados.
O apelo populista dos extremos da política ganha tração com uma classe operária e trabalhadora que se perdeu no tempo e não se reconhece mais na representação política. A mudança rápida da tecnologia somada à globalização, está fazendo com que muitos questionem ou mesmo abandonem seu tradicional eixo político-ideológico. As crises econômicas fizeram com que outros tantos perdessem seus empregos. Discursos ambientalistas e feministas não possuem apelo junto a esse eleitorado, afinal votamos sempre com a emoção, a sensação e a esperança de que os nossos problemas reais e concretos serão resolvidos. Esses eleitores querem renda e emprego, e não integração social com imigrantes. Ao perceber essa lacuna, os extremos souberam, oportunisticamente, adaptar seu discurso e ganhar espaço competitivo no jogo eleitoral. É fundamental acompanhar com atenção como caminharão esses grupos políticos nos próximos anos.

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