Maior impacto foi observado em países africanos e de baixa renda

Gabriela Nogueira Publicado em 10/09/2025, às 13h19
Um estudo recente do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP) revelou um crescimento notável no investimento em merenda escolar global, com os financiamentos mais que dobrando entre 2020 e 2024. O relatório, intitulado "O Estado da Alimentação Escolar no Mundo", divulgado na quarta-feira (10), indica que cerca de 80 milhões de crianças que anteriormente não tinham acesso a refeições escolares agora se beneficiam desse programa essencial.
Os dados apresentados no relatório evidenciam um aumento significativo nos recursos destinados à alimentação escolar, que saltaram de US$ 43 bilhões em 2020 para US$ 84 bilhões em 2024. Quando convertidos, esses valores correspondem aproximadamente a R$ 232 bilhões e R$ 454 bilhões, considerando a taxa de câmbio atual.
Desde o ano de 2020, o número de criançasatendidas por programas de alimentação escolarglobalmente aumentou em 20%, alcançando um total de 466 milhões de estudantes em 2024. O número de países que implementaram políticas nacionais de alimentação escolar quase dobrou, passando de 56 para 107 no mesmo período.
O relatório destaca que o aumento no atendimento é particularmente significativo em países de baixa renda, onde o número de criançasbeneficiadas cresceu em 60% nos últimos dois anos. A região da Áfricase destaca nesse avanço, com mais de 20 milhões de criançassendo alimentadas através de programas nacionais, com destaque para nações como Quênia, Madagascar, Etiópia e Ruanda.
Daniel Balaban, diretor e representante do WFP no Brasil, enfatizou a crescente compreensão dos países sobre a importância desse investimento. "É fundamental ressaltar que 99% desses recursos são oriundos dos próprios orçamentos dos países e não de empréstimos externos. Estamos vendo uma conscientização crescente entre países mais pobres, especialmente na África, sobre como o investimento em alimentação escolar é vital para as crianças, a agricultura, a educação e a saúde", comentou Balaban.
O relatório também aponta que as refeições escolares têm um impacto positivo no desempenho acadêmico das crianças. Balaban citou uma pesquisa indicando que alunos que recebem uma alimentação adequada tendem a apresentar melhores resultados escolares. "Alimentar bem as criançasé crucial para que elas consigam absorver o conteúdo ministrado em sala. Muitas vezes, uma criança que parece desatenta ou fraca pode estar enfrentando a fome", observou.
Além dos benefícios sociais e educacionais, o relatório sugere que cada dólar investido em merendaescolar gera entre sete e trinta e cinco dólares em retornos econômicos. Com a alimentação de 466 milhões de crianças, estima-se a criação de aproximadamente 7,4 milhões de empregos diretos nas cozinhas escolares e oportunidades indiretas em setores como logística e agricultura.
A adoção de modelos sustentáveis nos programas de alimentação escolar também é destacada no estudo. A compra local promove dietas saudáveis e fortalece as economias locais e nacionais.
O Brasil é mencionado como um exemplo positivo globalmente devido ao seu Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), coordenado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Este programa fornece refeições diárias para quase 40 milhões de alunos em cerca de 150 mil escolas, totalizando aproximadamente 50 milhões de refeições diariamente com um investimento anual estimado em R$ 5,5 bilhões.
Balaban destacou ainda o papel pioneiro do Brasil: "Desde 2009, temos uma legislação que exige que pelo menos 30% dos recursos destinados à alimentação sejam adquiridos diretamente da agricultura familiar local. Essa mudança revolucionou a forma como os alimentos são comprados para as escolas".
A pesquisa revela que o crescimento dos programas de alimentação escolar tem sido mais acelerado nos países integrantes da Coalizão para a Alimentação Escolar, uma rede global composta por mais de cem governos e seis organismos regionais. O Brasil atualmente co-preside esta Coalizão ao lado da Finlândia e da França.
Em adição a isso, o Brasil criou em 2011 o Centro de Excelência contra a Fome em colaboração com o WFP, apoiando mais de oitenta países na implementação de soluções sustentáveis para combater a fome por meio da alimentação escolar e outras estratégias sociais.
O relatório foi lançado na semana anterior à realização da 2ª Cúpula Mundial da Coalizão para a Alimentação Escolar, programada para ocorrer no Brasil nos dias 18 e 19 deste mês. Este evento reunirá líderes globais para discutir avanços na área e mobilizar novas ações relacionadas à alimentação escolar.
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