Aproximadamente 900 mil pessoas nessa faixa etária estão matriculadas em escolas

Nathalia Jesus Publicado em 20/03/2023, às 12h50
O episódio em que universitárias debocham de uma colega de turma de 44 anos na última semana evidencia o preconceito que pessoas nessa faixa etária enfrentam na busca pela alfabetização. Porém, este é só mais um dos obstáculos na trajetória dessas pessoas com a educação.
Há 900 mil adultos e idosos, a partir dessa mesma idade, que estão matriculados em escolas no Brasil, sendo alfabetizados e aprendendo conceitos básicos de matemática e ciências, segundo informações apuradas pelo g1.
Esse grupo, que faz parte do projeto Educação para Jovens e Adultos (EJA) - modalidades de aulas para quem não concluiu os estudos na idade regular -, ainda não chegaram ao ensino superior, mas já precisam passar por uma série de outras dificuldades.
Segundo Flávia da Silva, especialista em língua portuguesa e professora da rede pública de Goiás, inclusive da EJA, há algumas respostas comuns que explicam o porquê dessas pessoas não terem concluído os estudos na idade regular e eles podem ser listados:
José Carlos Conceição, de 61 anos, nascido em Pedrinhas, no Ceará, foi abandonado pelos pais ainda criança e disse não se lembrar de sua infância. Na histótia de José Carlos, alguns dos fatores citados pela especialista se misturam.
“Comecei a lavar carro, a lavar panela em restaurante, mas sempre tive o sonho de estudar. Porque conhecimento supera qualquer riqueza de ordem material, né? Essas pessoas me disseram que o céu era o limite. Eu acreditei”, disse.
Foi com essa animação que, durante a pandemia, José Carlos entrou para a EJA, na modalidade à distância. Terminou os estudos, prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2021 e foi aprovado em psicologia.
“Trabalho de madrugada, saio da portaria e vou direto para a aula de manhã. Os moradores do condomínio mudaram o jeito de me olhar quando souberam que faço faculdade”, relatou.
“Mas já ouvi muitas frases preconceituosas na vida. ‘Numa idade dessa, estudando? Para quê?’. Eu respondo: ‘porque eu quero; é proibido?'", comentou o estudante.
“A primeira barreira a ser rompida pelos alunos da EJA é com eles mesmos. Existe uma autocensura que faz com que eles se questionem: ‘será que ainda adianta estudar nessa idade?’”, afirmou Sonia Couto, coordenadora no Instituto Paulo Freire.
Ela explicou que esse questionamentos podem ser alimentados por amigos e familiares. “Há mulheres que são privadas de seus direitos por maridos que não admitem chegar em casa e não encontrar a esposa servindo o jantar, ‘só’ porque ela está na escola à noite”, disse. “E existem casos de filhos que ficam envergonhados de ter pais na EJA.”
O preconceito e a intolerância podem até chegar em tom de brincadeira.
“Isso sempre vai acompanhar quem não está no padrão. Tenho uma aluna [na EJA] que tem mais de 70 anos. As mais novas perguntam para ela o que ela espera do futuro nessa idade. Percebe-se um tom jocoso [de “zombaria”] nas falas”, explicou Flavia.
Conciliar o trabalho com a rotina de estudos também não é uma fórmula fácil. Em São Paulo, por exemplo, as aulas costumam ser ministradas no período noturnom o que pode dificultar ainda mais a adesão.
“Eles chegam cansados, com fome. E a pandemia provocou um estrago: alguns idosos que tiveram Covid-19 enfrentam ainda sequelas da doença, com problemas de memória e concentração. É preciso considerar tudo isso na hora de planejar uma aula”, comentou Sonia.
A forma como os conteúdos serão apresentados também pode impactar diretamenteno aprendizado de jovens e adultos, que não devem ser tratados como crianças de 6 anos só por estarem no mesmo nível de escolariadade.
“Se o aluno recebe uma atividade com coelhinho da Páscoa, vai se sentir infantilizado. Aos poucos, todo o esforço para estudar vai se desmobilizando”, explica Sonia. “Cabe aos professores pensarem em maneiras eficientes de ensinar o conteúdo, sempre valorizando os saberes da turma.”
Para uma aprendizagem efetiva, um professor que recebe os alunos nas salas de aula não deve se atentar somente a cumprir currículos, e sim a praticar a afetividade e a "abrir a porta" para a conversa.
O número de alunos da Educação Para Jovens e Adultos vem aumentando nos últimos anos: saltou de 728.429, em 2012, para 900.222, em 2022, segundo o Censo Escolar, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Especialistas ouvidos pelo g1 também listam as principais razões que motivam pessoas com mais de 40 anos a voltarem aos estudos:
Lucineide Ferreira, de 56 anos, parou de estudar na 3ª série do ensino fundamental, quando tinha 17 anos. “Eu morava no sertão do Ceará, então, o caminho era trabalhar na roça mesmo. Me casei, tive filhos e não voltei para a escola. Só agora que enxergo tudo o que ficou perdido para trás”, afirmou.
Lucineide agora é aluna na EJA e sonha em aprender a ler e escrever. “Enquanto eu estiver com saúde, vou continuar estudando. Quem sabe fazer o colegial? [antigo termo para ‘ensino médio’]".
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