Diário de São Paulo
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Sobre o presidente, os embaixadores e os servidores do Estado

Imagem: Reprodução | ABr via Grupo Bom Dia
Imagem: Reprodução | ABr via Grupo Bom Dia

Publicado em 23/07/2022, às 09h52 - Atualizado em 25/07/2022, às 08h38 Kleber Carrilho


Há duas questões a serem destacadas na conversa do presidente com os embaixadores nesta semana. E nenhuma delas tem a ver com os erros de revisão ou as traduções forçadas que estavam na apresentação.

A primeira é o papel dos servidores do Estado. Afinal, no Itamaraty e em diversos outros espaços, há pessoas que passaram em concursos, desenvolveram carreiras e não estão nos cargos devido a indicações políticas ou como servidores do governo. A função delas é servir o Estado.

Quando um membro de um governo, que pode inclusive momentaneamente ser chefe de Estado, como o presidente, faz algo que coloca em risco ou é vexatório para o Estado, esses servidores precisam agir. Isso acontece em qualquer lugar do mundo, como vimos recentemente no episódio em que o ex-presidente dos EUA queria participar da invasão ao Capitólio.

Lá, funcionários do Pentágono impediram que ele fosse até o local da manifestação e agiram de acordo com o que deve ser feito por quem tem a função de servir e proteger o Estado.

Então, os membros do Itamaraty, que é como costumeiramente se chama o Ministério das Relações Exteriores, deveriam ter argumentado com o presidente sobre os riscos para a imagem do Estado haver uma reunião como aquela. E, se fossem contrariados, deveriam ter se manifestado publicamente. Afinal, como já disse antes, eles não estão lá para servir um governo ou outro.

A segunda questão que serve como reflexão é a motivação do evento. Ao contrário do que muita gente pensa, ele não tinha nenhuma relação com o convencimento de embaixadores, ou dos Estados que eles representam, de que o sistema eleitoral é falho. Na verdade, aquele foi um momento de produção de conteúdos para a campanha eleitoral, que já está acontecendo a todo o vapor nas redes sociais e nos aplicativos de mensagem.

Ter imagens do presidente avisando ao mundo sobre os riscos que o projeto dele está correndo é material essencial para inflamar os seus apoiadores e criar mais motivos para que ele se apresente como uma grande vítima do “sistema”.

Se o presidente tivesse uma equipe competente de comunicação, ou ouvisse as pessoas que conhecem do assunto e estão próximas, entenderia que isso não é necessário e, em vez de ajudar na reeleição, dificulta a conquista dos eleitores que não estão apaixonados por ele.

Isso porque o presidente já tem com ele os eleitores radicais e, na conquista dos que faltam para a reeleição, deveria haver o discurso dos argumentos, a apresentação dos números, a comparação com o governo Dilma Rousseff, a ideia de que, mesmo em um ambiente de uma terrível pandemia, ele conseguiu manter as rédeas do poder.

Porém, como eu conversava com um amigo militar há alguns dias, não adianta dar um Exército a um capitão. No máximo, ele consegue comandar uma Companhia, com cem combatentes. Exércitos são comandados por generais, que sabem o que estratégia. E, claramente, o Capitão não sabe o que é isso.

O que realmente preocupa é o fato de que haja poucos generais querendo impedi-lo de fazer bobagens. Precisamos entender exatamente por quê.

Sobre o autor

Kleber Carrilho é professor, analista político e doutor em Comunicação Social

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