Por Fernanda Trigueiro

Redação Publicado em 10/12/2021, às 00h00 - Atualizado às 07h41
Por Fernanda Trigueiro
Esses dias pedi um carro de aplicativo. Quando entrei e vi que era uma mulher quem dirigia confesso que gostei. Eu e ela começamos a conversar e contei que senti um alívio estranho ao vê-la. A profissional relatou não era a primeira vez que ela ouvia isso de uma passageira.
Eu sou do tipo que entro no carro e vou o trajeto todo conversando com o motorista. Sempre me despeço sabendo da vida toda da pessoa. Mas ao fazer a corrida com uma mulher na direção, a sensação foi diferente. Quero deixar claro que já encontrei muitos homens que prestaram um serviço excelente e me transmitiram segurança. Por isso, me questionei e até me senti culpada por preferir estar sendo atendida por uma mulher assim como eu.
Meu relato pode parecer sem pé nem cabeça, mas diz muito sobre a nossa sociedade. Um homem quando sai de casa não pensa na roupa que vai usar. A mulher precisa escolher. Inclusive, porque dependendo da reação de quem a encontra por aí, a culpa será dela. Quem mandou usar decote ou saia curta? Homens quando entram no ônibus, trem ou metrô costumam ter apenas uma preocupação: onde vão sentar. Mulheres se sentem ameaçadas e com medo. E não é à toa, a Pesquisa Nacional da Saúde, divulgada este ano pelo IBGE, concluiu que 79,7% das brasileiras já foram vítimas de algum tipo de violência sexual. Crimes que acontecem no transporte público, na rua, no trabalho e até mesmo em casa.
Todas nós vivemos em estado de atenção não importa onde estamos. A motorista Regiane depois confessou que ela também tinha ficado aliviada quando chegou na minha casa e viu que pelo menos naquela hora não levaria um homem. Ela ainda relatou que sempre gostou de dirigir e que quando decidiu virar motorista profissional ouviu muitas críticas. Na verdade, as críticas vieram de pessoas que gostam e se preocupam com ela. Gente que teve medo só de imaginar que ela por ser “ela” e não “ele” iria encarar sozinha o trânsito e a violência da capital.
Viver em alerta é desgastante e nós, mulheres, sempre estamos em teste. Teste de sobrevivência e também de paciência. Imagina ter que provar a todo momento que é realmente capaz? Imagina todo dia tentar se blindar dos perigos? Ter que olhar para o lado, para trás e desconfiar de tudo e de todos? É exaustivo, reafirmo.
Mulheres são a maioria, 52% da população, mas ainda são tratadas como se fossem menos. Até quando não sabemos. Já passou da hora de não normalizarmos a cultura do machismo e da violência. As mulheres sabem o papel delas neste mundo. Agora cabe a eles fazerem o mesmo. Esquecer o papo de “sexo frágil” e tratar cada uma delas como merece: com igualdade e respeito.
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