Diário de São Paulo
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As Muralhas da Resiliência

Conjunto de muralhas erguidas em Roma, entre 271 e 275 - Imagem: Reprodução | Google Maps
Conjunto de muralhas erguidas em Roma, entre 271 e 275 - Imagem: Reprodução | Google Maps

Publicado em 14/07/2022, às 11h03 Danilo Talanskas


A capacidade de resiliência continua sendo uma das competências mais importantes em uma carreira. Trata-se de algo pessoal, individual, com limites diferentes para cada pessoa. Dificilmente ouvimos a expressão de que “tenho um time com alta resiliência”.

Tal como nas batalhas, a resiliência necessita de preparação prévia, semelhante às muralhas construídas na Antiguidade e na Idade Média.

Vamos tomar como exemplo a Muralha Aureliana, um conjunto de muralhas erguidas em Roma entre 271 e 275. Sua extensão total era de 19 quilômetros, e cercava uma área de aproximadamente 13,7 quilômetros quadrados, sendo que sua altura era de 10 metros e 3,5 metros de espessura. Sua construção surgiu como reação à invasão bárbara em 270, visando fortalecer as defesas da cidade. Construída por Aureliano, era um meio de desencorajar táticas de invasão de Roma. Não sabiam que tipo específico de inimigo tentaria uma invasão, mas tinham que estar preparados para todas as circunstâncias.

Antes de termos que exercer a resiliência, precisamos construir as nossas próprias “muralhas preventivas”.

Um grande propulsor de stress é a palavra “Crise”, que nos arremete a grandes pressões e, às vezes, ao pânico, como se esta situação fosse uma novidade. Na realidade, pequenos períodos de calmaria é que são as exceções. A crise é um modo de vida. Basta olharmos os últimos cem anos de acontecimentos nacionais e internacionais, que afetaram grandemente o nosso dia a dia nos negócios. Tivemos a Primeira Guerra Mundial, seguida pela pandemia da Gripe Espanhola e depois de poucos anos o crack da Bolsa de Nova York, levando à Grande Depressão que afetou o mundo inteiro.

Nesse período nascia e crescia o partido nazista na Alemanha, que levou à Segunda Guerra Mundial, com o mundo recém-saído da Depressão. Nessa mesma época tivemos no Brasil o governo de Getúlio Vargas, ainda uma ditadura. Os anos 50 trouxeram os temores da Guerra Fria, enquanto a frágil democracia brasileira tentava se levantar, para desembocarmos em nova revolução seguida de uma ditadura iniciada nos anos 60 e que durou vinte anos. Nos anos 80, já no primeiro governo eleito pelo povo, fomos castigados por uma inflação galopante, que só veio a ser dominada na década seguinte, depois de um sequestro de todas as poupanças no Brasil. Poucos anos depois, o 11 de Setembro mudou o perfil dos conflitos no mundo, para depois de apenas sete anos termos o segundo crack da Bolsa de Nova York em 2008.

Depois de uma década relativamente calma, mas com grandes revoluções tecnológicas através da internet, que mudou totalmente a forma de se fazer negócios e trazendo obsolescência de muitas práticas. Recebemos então a segunda grande pandemia mundial, um século após a primeira e no momento em que este artigo é escrito estamos passando pelos desafios globais trazidos em razão de uma guerra entre Rússia e Ucrânia, em meio a um momento político conturbado em nosso país. O que virá em seguida?

Se aceitarmos para nós mesmos que vivemos em um mundo conturbado, mas ainda assim com grandes realizações, será mais fácil desenvolvermos uma “resiliência natural” a todos estes fatos. Nossa tendência é de ao nascermos, entrarmos em uma estrada acidentada e com grandes buracos em alguns trechos, olhando apenas para a frente, na espera de uma “freeway” para uma viagem tranquila. Sem olharmos o retrovisor, não percebemos que esta viagem tranquila nunca chegará.

Este é o primeiro pedaço de nossa “muralha”: termos a consciência que sempre viveremos debaixo de alguma crise, em algum lugar no globo e que nos afetará. Este é o nosso estado natural como profissionais.

Outro pedaço de nossa “muralha” é não tornar a nossa vida pessoal e profissional em vasos comunicantes. Vemos muita gente que leva para o ambiente e “amigos” do trabalho, suas frustrações ou desgostos da vida pessoal (o oposto também é verdadeiro). Ao permitir que colegas de trabalho tenham conhecimento de seus problemas pessoais, abre-se uma brecha para que você seja avaliado, não só como profissional, mas também pelo seu comportamento pessoal, privativo. Não raro, estes fatos surgem em momentos de discussões dos gestores a respeito de promoções e na análise de traços pessoais de candidatos a novas posições.

Ao entrar no trabalho deve ser fechada a porta de sua vida pessoal, por mais que seja um exercício difícil se você estiver em meio a frustrações. Este sempre é um grande teste de resiliência: não deixar que aspectos pessoais transpirem no ambiente de trabalho e vice-versa. Nenhum dos dois ambientes devem sofrer pelas intempéries do outro, muito embora no ambiente pessoal e familiar podemos ganhar a força para enfrentar os desafios profissionais. O oposto, porém, não se aplica.

A Muralha Aureliana tinha um ponto mais fraco denominado Borgo, onde sua altura era mais baixa e ainda com um terreno elevado à sua frente. Este ponto tornou-se ainda mais vulnerável quando com o advento das armas de fogo e dos canhões. Aquele ponto era sempre reforçado em sua defesa devido à sua fragilidade. Assim como esta muralha, todos nós temos nossos pontos fracos. O outro pedaço para a proteção de nossa “muralha” é o de trabalharmos em nossos pontos fracos preventivamente, antes que venha um “ataque do inimigo”. Teria que citar aqui dezenas ou centenas de desafios, mas apenas exemplifico com problemas com ansiedade, depressão, falta de paciência, não saber ouvir, timidez, falta de conhecimento técnico, insegurança com a função atual, temor com o seu futuro, dificuldades com trabalho em equipe, medo de falar em público, etc., etc., etc...

Em momentos de grande pressão, quando sua resiliência é colocada à prova, estes pontos de sua “muralha” podem se tornar muito frágeis, se você não trabalhar para vencê-los ou dominá-los.

Por fim, um dos pontos que necessitamos mais resiliência é muitas vezes no convívio com o(a) chefe. Independentemente de sua chefia ser próxima do time ou de buscar entender cada um individualmente, cabe a você todo o esforço de adaptação. Isto é parte intrínseca de qualquer carreira. É um “casamento” com prazo de vencimento, pois chefes não são eternos e sempre há mudanças.

Aprendi em minha carreira que cada vez que eu tive um chefe ótimo (em minha perspectiva), me preparava mentalmente para uma mudança futura e que poderia ter uma chefia difícil. O oposto também era válido. Quando tive superiores de relacionamento muito difícil, eu sabia que precisava de paciência e perseverança, pois esta situação não seria para sempre e haveriam mudanças positivas. E foi sempre assim.

Lembro-me de uma ocasião em que perdi o meu emprego exatamente por esta razão. Quando procurava outra posição, um sábio “head Hunter” me ajudou muito com uma frase: “Danilo, você não imagina quantas pessoas saem de suas posições simplesmente pela “falta de química” com o chefe. ” Se eu puder deixar um conselho, reforço o que disse acima: aja como se todo o esforço de adaptação seja apenas de seu lado e prepare-se para trabalhar com muitos tipos de chefes.

Assim como a Muralha Aureliana cercava Roma em um grande quadrado, que a sua “muralha” de resiliência tenha estas quatro dimensões: aceitar as crises como o estado normal do país, do mundo ou do mercado, não misturar desafios pessoais com o ambiente profissional, trabalhar intensivamente em seus pontos fracos e ter um esforço constante e consciente de adaptação com a sua chefia.

Se eu tivesse identificado estes pontos quando ainda jovem e no início de minha carreira, talvez tivesse evitado vários percalços. Assim, me restam os votos de sucesso na construção de suas “muralhas” de resiliência!

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