
Marlene Polito Publicado em 24/12/2024, às 10h31

Durante um curso que Reinaldo Polito e eu ministramos em VitóriaES, um episódio comovente chamou nossa atenção. Um engenheiro, conhecido pela postura firme e metódica, relatou a experiência que viveu ao receber a avaliação escolar do seu filho de cinco anos.
Ao examinar o boletim, chamou o menino para falar sobre os pontos que precisavam ser melhorados:
– Fala demais;corre pela sala; brinca o tempo todo, não presta atenção;
esquece de fazer o desenho; rabisca o caderno do coleguinha...
A cada menção desses “problemas”, o garoto olhava para o pai, olhos brilhantes, e perguntava:– O que mais?
Depois da terceira ou quarta vez, o pai percebeuque o menininho, em suspenso, esperava algo além. Olhou para ele, para os olhos ansiosos, e entendeu que, desde o início, a pergunta “O que mais?” vinhacarregada de significado.
Então, começou a enfatizar todas as qualidades que também haviam sido apontadas, a cumprimentá-lo e a dizer como estava orgulhoso dele. Viua alegria enorme que tomou conta do rosto da criança, que ria, feliz. A alegria do filho passou, então, a ser a sua alegria; e, de repente, as linhas em preto e branco do relatório se coloriram de tons vibrantes e cheios de vida.
A empolgação do garoto lembra muito a cena retratada em The Discovery (1956), de Norman Rockwell, em que um menino, surpreso, encontra uma roupa de Papai Noel. A expressão de fascínio no quadro traduz a mesma magia da expectativa infantil, tão presente na pergunta ‘O que mais?’”
A história do menininho ilustra um sentimento humano universal — a busca por reconhecimento e esperança. Entretanto, “O que mais?” também desperta nossa insegurança diante do desconhecido. Funciona como uma porta que se abre para questionarmos o futuro, a nós mesmos e o sentido de nossas experiências.
Em épocas de transição, como a passagem de ano ou fases de mudança pessoal ou profissional, “O que mais?” se torna quase inevitável, pois nos confronta com a necessidade (ou o desejo) de planejar, sonhar e, às vezes, recomeçar.
E nos perguntamos: O que mais podemos enxergar de positivo em nós mesmos e nos outros? O que mais podemos esperar? O que será? É justamente nesse “não saber o que vem a seguir” que mora tanto o medo quanto o fascínio por “algo mais”.
Se, no dia a dia, a pergunta “O que mais?” se traduz em planos e expectativas, para os artistas torna-seum impulso criativo, abrindo caminho para novas maneiras de representar a realidade ou tensionar nosso modo de vê-la.

A obra do ilustrador e pintor norte-americano Norman Rockwell, Breaking Home Ties, capta esse instante de separação e antecipação pelo futuro.
A pintura mostra o momento em que um jovem está prestes a deixar a casa dos pais para iniciar uma nova etapa (geralmente a faculdade ou a cidade). O quadro expressa uma dualidade de emoções: ao mesmo tempo em que há empolgação pelo que vem, há também melancolia e saudade. Simbolicamente, mostra o confronto entre o que se deixa para trás e as possibilidades que se abrem no horizonte.
Não é apenas Rockwell quem encarna essa inquietude. Nas tirinhas de Mafalda,de Quino,a personagem se pergunta continuamente sobre o futuro, deixando transparecer em cada enquadramento o implacável ‘O que mais?’”

Essa tirinha reforça a ideia central do “O que mais?” como força motriz de inquietação. Se Miguelito simboliza a confiança de que algo melhor virá, Mafalda encarna a dúvida incansável que questiona: “Será que estamos nos contentando com pouco? Podemos ir além?” E então a realidade (a folha que cai da árvore sobre ele, como possível atendimento a um desejo) revela que, muitas vezes, a vida parece nos dar menos do que ansiamos.
A graça surge do choque entre expectativas altas e resultados modestos. Além do humor, a tirinha convida a refletir sobre nossas reações àsfrustrações cotidianas e a natureza humana de sempre querer mais, buscando um sentido ou um “presente” maior da vida.
Assim como o menino que aguardava elogios, a criança em A descoberta de Norman Rockwell, o jovem de Breaking Home Ties e a inquietude de Mafalda nos mostram que cada etapa da vida renova esta pergunta.
A cada “E se ...?” e “Por que não?”, mantemos viva a dinâmica de transformação que faz de “O que mais?” um propulsor para descobertas — no mundo e em nós mesmos.
Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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