
Adriana Galvão Publicado em 11/06/2024, às 06h00 - Atualizado às 10h54
A astrônoma e astrofísica brasileira Duília de Mello foi para os Estados Unidos em 1997 para participar do projeto do telescópio Hubble e nunca mais voltou ao Brasil. Hoje é vice-reitora da Universidade Católica de Washington DC e colaboradora da Nasa. Como noticiado na imprensa, ela decidiu deixar a terra natal depois de um corte de bolsas do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Há milhares de cientistas brasileiros que, como Duília, foram embora para emprestar trabalho e talento a outra nação.
A fuga de cérebros da ciência brasileira, movimento que compromete o potencial de desenvolvimento do país, não é gratuita e se deve, antes de tudo, às prioridades adotadas pelas autoridades públicas: seguidos governos relegaram o incentivo à ciência ao segundo plano. Como reconheceu o próprio presidente do CNPq, Ricardo Galvão, o Brasil forma 24 mil doutores por ano para uma oferta de emprego e vagas via concurso público para menos de mil. O orçamento destinado a pesquisas científicas caiu 60% entre 2014 e 2022. Nem se fale em recursos para recomposição do parque tecnológico e de laboratórios.
Temos uma verdadeira diáspora científica no Brasil. Segundo estimativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, 6,7 mil cientistas deixaram o país nos últimos anos, e hoje pelo menos 35 mil vivem no Exterior. O que antes era característico dos profissionais de tecnologia, hoje engloba trabalhadores de outras áreas, como português e matemática.
Um país que não valoriza seus doutores e pesquisadores não será vitorioso nas suas contendas mais visíveis e urgentes, como aquelas travadas contra a desigualdade social e pela preservação do meio ambiente. Cabeças pensantes podem encontrar fórmulas para prevenir catástrofes climáticas como a que atinge neste o momento o Rio Grande do Sul ou para levar infraestrutura urbana a comunidades vulneráveis, para ficarmos em exemplos mais evidentes. Nem se fale do campo farmacológico, cujos profissionais do Instituto Butantã e da Fundação Oswaldo Cruz deram inequívoca demonstração de abnegação durante a pandemia de Covid-19.
Não se trata de criar obstáculos aos cientistas que almejarem a uma experiência no Exterior, mas de estimulá-los a permanecer aqui ou, no caso dos que já foram, a voltar. Em 2023, conforme pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Unicamp, 44% dos doutorandos, 51% dos pós-doutorandos e 40% dos professores e pesquisadores com contrato temporário no Exterior manifestaram desejo de voltar ao Brasil, desde que existam boas oportunidades de trabalho.
Os entraves à permanência dos cientistas no Brasil não são poucos nem de fácil superação. Um deles é de natureza burocrática: os processos seletivos exigem concursos presenciais específicos para cada universidade, o que implica custos com transporte, estadia e alimentação, entre outras complicações logísticas. Os Estados Unidos, o sistema de contratação acadêmica é uniformizado e totalmente on-line.
Não é tarde para começar uma ação reversa. O Governo Federal acena nessa direção, por ora de modo incipiente, com o Programa Conhecimento Brasil, também chamado de Repatriação de Talentos, pelo qual se pretende oferecer bolsas de até 13 mil reais por até cinco anos a pesquisadores com mestrado e doutorado, além de criar um fundo para instalação de laboratórios e formação de redes de pesquisas.
À primeira vista, a iniciativa parece tímida, mas certamente constitui um avanço diante do desmonte que se viu anos antes: em 2020, os investimentos em pesquisa foram reduzidos em 8,2% no país; nos anos subsequentes, o número de doutores regrediu ao patamar de 2016 - dos 24,4 mil doutorandos anuais em 2019, caímos para 20,7 mil em 2021.
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