Estudos indicam que o tratamento pode controlar rapidamente a viremia em casos graves

Gabriela Nogueira Publicado em 21/11/2025, às 16h00
O Instituto Butantan anunciou uma parceria estratégica com a empresa norte-americana Mabloc para desenvolver e produzir uma terapia inédita contra a febre amarela, doença viral que voltou a preocupar autoridades de saúde em várias regiões do Brasil. O novo medicamento, chamado MBL-YFV-01, é baseado em anticorpos monoclonais e foi projetado para ser usado por pessoas infectadas que não se vacinaram antes da exposição ao vírus.
A iniciativa surge em um cenário de aumento de casos em estados como São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, onde surtos recentes reforçaram a vulnerabilidade de populações com baixa cobertura vacinal. Embora a vacina continue sendo a principal ferramenta de prevenção, especialistas apontam que ainda existem milhões de pessoas desprotegidas, o que torna urgente a busca por alternativas terapêuticas.
O MBL-YFV-01 foi criado a partir da plataforma BRAID™, tecnologia da Mabloc que utiliza inteligência artificial para identificar e otimizar anticorpos com rapidez. Em estudos realizados em modelos animais e publicados na revista Science Translational Medicine, uma única dose foi suficiente para impedir a progressão da infecção, controlar a viremia e evitar mortes. Para pesquisadores envolvidos no projeto, essa capacidade de atuar logo nos primeiros dias da doença pode mudar o desfecho de pacientes graves.
Segundo Cristiano Gonçalves, diretor de Inovação do Butantan, a colaboração reforça o compromisso do instituto em priorizar áreas nas quais a indústria tradicional investe menos. Ele destaca que anticorpos monoclonais são caros de produzir, mas altamente eficazes e com poucos efeitos adversos, o que os torna ferramentas promissoras para doenças virais emergentes.
A Mabloc, especializada no desenvolvimento de terapias monoclonais para infecções, vê no acordo a chance de acelerar soluções em regiões onde a vacinação enfrenta barreiras de acesso. Michael Ricciardi, diretor de Desenvolvimento de Produtos da empresa, afirma que a experiência do Butantan em ensaios clínicos e produção em escala será decisiva para disponibilizar o tratamento rapidamente durante períodos críticos.
O contrato prevê uma licença exclusiva para que o Butantan conduza o desenvolvimento e a futura distribuição do MBL-YFV-01 em países de baixa e média renda. Para o instituto, além de atender a uma necessidade urgente de saúde pública, o projeto deve impulsionar o avanço tecnológico nacional na área de biofármacos.
A relevância clínica da nova terapia se evidencia em estudos que mostram que pacientes com alta carga viral apresentam risco elevado de morte. Pesquisas anteriores identificaram que pessoas com viremia intensa não resistiram à internação. Ao reduzir rapidamente essa carga, o MBL-YFV-01 pode se tornar uma ferramenta essencial para diminuir o número de óbitos por formas graves da enfermidade.
A febre amarela segue sendo um desafio para o continente americano. Até maio deste ano, foram confirmados mais de 200 casos e quase uma centena de mortes nas Américas, sendo 111 infecções e 44 óbitos no Brasil. A transmissão no país continua limitada ao ciclo silvestre, envolvendo mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes. Mesmo assim, a Organização Pan-Americana da Saúde alerta para o risco crescente de expansão da doença para áreas antes consideradas livres.
Enquanto campanhas de vacinação continuam fundamentais para evitar novos surtos, especialistas afirmam que terapias como o MBL-YFV-01 representam um avanço decisivo. Com a nova parceria, o Brasil pode inaugurar uma etapa inédita no combate à febre amarela, oferecendo tratamento específico e aumentando as chances de sobrevivência de pacientes em estado crítico.
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