
por Reinaldo Polito
Publicado em 05/10/2025, às 13h40
Os governistas aguardavam ansiosos uma nova pesquisa de opinião para medir a reprovação de Lula. Estavam esperançosos de que o embate entre o presidente brasileiro e Donald Trump, provocado pelo tarifaço de 50%, e a condenação de Jair Bolsonaro por participação na trama golpista, pudessem finalmente catapultar sua popularidade.
Havia, de fato, algum motivo para otimismo. Analisando apenas a questão das tarifas, com a possibilidade de pintar o presidente americano como vilão da história, esperava-se que se criasse um ambiente de solidariedade nacional em defesa de uma causa comum.
Não seria a primeira vez que um governante, acuado no cenário interno, buscaria respaldo em um inimigo externo para ganhar apoio. Mas, dessa vez, a estratégia parece não ter dado certo.
Desaprovação elevada
Segundo o PoderData, em pesquisa divulgada no dia 1º deste mês, a desaprovação de Lula caiu de 53% para 51%. Para quem vinha respirando por aparelhos, poderia soar como vitória. Porém, olhando para a realidade do desempenho em si, o calvário continua.
Primeiro porque a maioria da população segue com opinião negativa em relação ao governo.
Segundo porque a oscilação está dentro da margem de erro, não configurando um movimento real de recuperação.
Ainda de acordo com o levantamento, 43% avaliam a gestão como ruim ou péssima, 23% como boa ou ótima, e 32% como regular. Houve apenas pequenas alterações em comparação com a pesquisa anterior, quando os índices eram 41%, 22% e 34%, respectivamente. Para quem sonha em manter a faixa presidencial, esse resultado já acende uma luz amarela.
Uma velha preocupação
A preocupação é antiga. O próprio Lula já havia se queixado, em discurso na Conferência Eleitoral do PT, em dezembro de 2023, sobre a dificuldade de dialogar com o eleitorado mais qualificado. Na ocasião, disse:
“Quem ganha acima de cinco salários-mínimos já tem dificuldade de votar na gente. É porque essa pessoa ficou ruim? Não. É porque possivelmente essa pessoa elevou um milímetro o padrão de vida dela, e nós não aprendemos a conversar com ela.”
Escândalos para piorar
Quase dois anos depois, as pesquisas recentes do Datafolha confirmam o diagnóstico do presidente: quem tem renda mais alta e maior escolaridade tende a desaprovar o governo. Ora, se pessoas esclarecidas e com padrão de vida mais elevado, que, em tese, poderiam analisar de maneira mais ponderada o desempenho do governo, se mostram insatisfeitas, é porque os rumos do país não convencem.
Mesmo que o governo recorra a ações populistas para tentar segurar votos em setores mais vulneráveis, a instabilidade econômica interna e a conjuntura internacional negativa são obstáculos que não se resolvem com propaganda. Para agravar o cenário, os escândalos do INSS revelados pela CPMI carregam peso político e tendem a respingar diretamente na imagem do governo, desgastando ainda mais sua credibilidade.
Corrida presidencial
A pesquisa IPESPE, realizada em setembro, sobre cenários para 2026, mostrou Lula ainda na liderança, com 47% das intenções de voto. Em seguida aparecem Jair Bolsonaro, com 35%; Tarcísio de Freitas, 33%; Fernando Haddad, 32%; Michelle Bolsonaro, 25%; Ratinho Jr., 23%; Eduardo Bolsonaro e Romeu Zema, 20% cada; Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado, 16% cada; e Eduardo Leite, 11%.
À primeira vista, o resultado poderia trazer alívio: Lula segue na frente.
Mas, olhando com mais cuidado, há razões de sobra para preocupação. Entre os nomes que aparecem bem-posicionados, vários não são candidatos confirmados ou estão impossibilitados de disputar. Bolsonaro está inelegível, Michelle não declarou se concorrerá, Eduardo Bolsonaro encontra-se nos Estados Unidos sem perspectivas de retorno.
A união da direita seria poderosa
Mesmo assim, à exceção de Haddad e mais um ou outro desgarrado, todos pertencem ao campo oposicionista. Isso significa que, em eventual segundo turno, a tendência é de união em torno de um candidato de direita, ampliando as chances de derrota do presidente.
O caso de Tarcísio de Freitas é emblemático. O governador paulista insiste em dizer que pretende disputar a reeleição em São Paulo, mas, caso mude de ideia, seus atuais 33% poderiam se transformar em força majoritária em âmbito nacional.
A solução é governar bem
Portanto, apenas brigar com Trump ou criticar a família Bolsonaro parece um argumento frágil para reconquistar a confiança do eleitor. Ainda mais porque, após os elogios e o convite para reunião feitos pelo presidente americano, o discurso de perseguição perdeu efeito.
Resta insistir no antagonismo com Bolsonaro, mas, diante das pressões sobre o Judiciário, talvez nem isso seja suficiente. O ideal mesmo seria governar bem, entregar resultados concretos e dar qualidade de vida à população. Mas aí já estamos falando de uma história bem diferente.
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