
por Reinaldo Polito
Publicado em 21/06/2026, às 08h00
Jaques Wagner acaba de colocar água no chope de Lula. No momento em que o presidente começava a dar sinais de reação nas pesquisas eleitorais, seu companheiro de mais de 40 anos de lutas acabou puxando seu tapete. Com a visita da Polícia Federal a endereços ligados a ele na Bahia e em Brasília, o líder do governo no Senado pode ter comprometido os planos de seu chefe político.
Lula havia encontrado a bala de prata. Descobriu que ligar Flávio Bolsonaro ao esquema do Banco Master renderia, como realmente rendeu, dividendos eleitorais. A economia poderia ir mal, a desaprovação do governo bater recordes, a falta de planejamento atrapalhar, a pesada arrecadação asfixiar a população, mas o slogan Bolsomaster parecia resolver parte do problema eleitoral.
Um dos maiores escândalos da história
O presidente, que vinha perdendo pontos nas pesquisas, encontrou uma fórmula milagrosa para tentar virar o jogo. O caso do Banco Master talvez seja um dos maiores escândalos financeiros da nossa história recente. Grande o bastante para contaminar quem aparecesse ligado, direta ou indiretamente, ao ex-dono do banco, Daniel Vorcaro.
Por isso, a divulgação do áudio de uma conversa entre Flávio e Vorcaro explodiu na imprensa e foi aproveitada pela campanha de Lula como espécie de epicentro dos desvios financeiros investigados pela Polícia Federal. Flávio acusou o golpe. Aceitou convites da imprensa para falar sobre o tema, independentemente de serem ou não veículos ideologicamente simpáticos a ele.
Queriam a sua cabeça
Explicou que se tratava de um investimento privado para financiar o filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Argumentou que não houve nenhuma contrapartida, a não ser a expectativa de retorno com o sucesso da produção para remunerar os investidores. Mas suas explicações pareciam condenadas à rejeição. Queriam a sua cabeça.
Em uma campanha eleitoral que prioriza mais a narrativa do que os fatos, era o que os marqueteiros de Lula poderiam desejar. Não era preciso muito esforço. Bastava Lula incluir essas informações em algum trecho de seus pronunciamentos para que o estrago no adversário se consumasse cada vez mais.
As surpresas da política
Como em política cada manhã pode ter um clima diferente do observado na noite anterior, Flávio rezava para que algum fato novo e bombástico aparecesse para tirá-lo das cordas e levá-lo de volta ao ataque. Estava difícil. Nem mesmo as críticas feitas pelo presidente americano Donald Trump à economia, à política e ao Judiciário brasileiro faziam cócegas no desempenho de Lula. O presidente saboreava um verdadeiro voo de cruzeiro.
Eis que, diante desse quadro tão favorável ao presidente, surge uma pedra no meio do caminho. Sim, no meio do caminho havia uma pedra chamada Jaques Wagner. A Polícia Federal passou a apurar suspeitas de ligações comprometedoras envolvendo o líder do governo no Senado. Valores expressivos em moeda estrangeira foram encontrados em endereços ligados a ele. Há ainda a suspeita de que um apartamento teria sido comprado em nome de terceiro para atender a interesses de sua família. Enfim, um tsunami político de proporções inimagináveis.
A explicação foi pior
Diante desse pesadelo, tentando se defender, Wagner acabou por jogar Lula na mesma fogueira. O que disse em entrevista à BandNews foi uma bola nas costas do presidente. Talvez por se sentir fragilizado, pegou na mão de Lula para se salvar. Mas complicou ainda mais a situação ao dizer:
“Eu continuo na liderança até que o presidente Lula peça que eu me retire. Não acho que ele vai fazer isso, mas se ele fizer é um direito dele. O cargo de líder do governo é do presidente da República, mas eu falei com ele hoje e ele sequer tocou nesse tema”.
Pode ter ajudado Flávio
Se tivesse pedido para sair do cargo, talvez tivesse reduzido o problema de Lula. Não ter saído, e ainda por cima dizer que essa é uma decisão do presidente, complica. Depois desse pronunciamento, se sair agora, poderá parecer uma confissão política de culpa. Se permanecer e Lula tiver de afastá-lo, poderá desgastar a posição do chefe do Executivo.
Tendo ou não culpa nessa história toda, o estrago já foi feito. As redes sociais ficaram entupidas com a repercussão dessa notícia. O assunto estampou manchetes e ocupou o centro da conversa política. Alguma decisão deverá ser tomada. Se continuar no cargo, provavelmente prejudicará ainda mais a campanha de Lula. Dependendo de como sair, se sair, o resultado talvez não seja menos catastrófico.
Flávio Bolsonaro agradece. Afinal, agora basta a ele mostrar que seu adversário pode estar com batom na cueca. Siga pelo Instagram: @polito
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