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A imprensa deu um cavalo de pau

Imagem: Divulgação
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Reinaldo Polito

por Reinaldo Polito

Publicado em 04/01/2026, às 09h18


Durante um longo período, consolidou-se, em boa parte da imprensa, uma conduta bastante conhecida: criticar o bolsonarismo e relativizar ou minimizar equívocos do governo. Críticas e elogios muitas vezes chegavam a ser seletivos, aplicados conforme a posição ideológica dos personagens envolvidos.

Esse tipo de comportamento não é novo. O pensador político Isaiah Berlin lembrava que, quando instituições passam a operar guiadas por uma única lente moral ou ideológica, perdem a sensibilidade para o plural e tendem a confundir convicção com virtude. O resultado costuma ser um olhar seletivo, atento a uns, indulgente com outros.

Não é um “privilégio” brasileiro

Políticos identificados com o bolsonarismo eram frequentemente rotulados como extrema-direita, enquanto seus adversários, de esquerda, eram descritos apenas como progressistas. Na eleição de 2022, esse viés tornou-se ainda mais visível. Há quem sustente que, entre outros motivos, o papel da imprensa tenha sido decisivo para a vitória de Lula e a derrota de Bolsonaro.

Embora esse fenômeno tenha se manifestado com força no Brasil, não é exclusividade nossa. Quem acompanhou os últimos pleitos nos Estados Unidos pôde observar comportamento semelhante na imprensa americana, em geral mais empenhada em apontar falhas nas condutas de Donald Trump do que em conter o tom das críticas. O próprio presidente americano afirmou repetidas vezes que foi severamente prejudicado pelo tratamento jornalístico.

Uma grande virada

Nos últimos dias, porém, a imprensa brasileira deu um salto triplo com twist carpado que surpreendeu leitores e telespectadores. Veículos de grande peso, como O Globo, Estadão e Folha de S.Paulo, passaram a publicar informações duras contra o governo e o STF. Ministros que raramente eram criticados de forma nominal passaram a ser citados com nome e sobrenome.

No caso do Banco Master, essa virada de mesa tornou-se ainda mais evidente. O Globo passou a destacar os possíveis deslizes atribuídos ao ministro e, mesmo após a divulgação de notas explicativas do Banco Central e do próprio magistrado, voltou à carga afirmando que as respostas não elucidavam o caso. Pelo contrário, apontava incoerências nas explicações apresentadas.

Estadão e Folha na briga

O Estadão, por sua vez, depois de ter apoiado o inquérito das fake news, adotou postura distinta nessa nova fase. Reconhece que, para o estado de coisas existente à época, havia justificativa para medidas firmes e excepcionais. Mas agora, revendo sua posição, afirma que o STF passou do ponto. Valendo-se de uma clara maiêutica socrática, o jornal levanta questionamentos retóricos:

“Quem define, afinal, o que constitui ataque ao STF? Onde termina o discurso crítico ao Judiciário e começa a ação criminosa?” E prossegue como se estivesse esclarecendo as próprias perguntas: “A Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito é taxativa ao afirmar que não constitui crime a manifestação crítica aos Poderes constitucionais.”

A Folha de S.Paulo não ficou atrás. Em matéria publicada em 26 de dezembro de 2025, critica abertamente o caso do Banco Master. Já na chamada: “Empresários levantam alerta sobre a reputação do STF após escândalo do Master.” E segue no mesmo tom ao afirmar: “Divulgação de relações de Moraes e Toffoli com defesa do banqueiro eleva a preocupação com a credibilidade da Corte.”

Esse movimento da imprensa remete a uma observação clássica de Alexis de Tocqueville, que via na liberdade de imprensa não uma virtude constante, mas uma força inquieta, capaz tanto de vigiar o poder quanto de se acomodar a ele. Para o pensador francês, a imprensa raramente erra por excesso de independência; seu risco maior está nos longos períodos de alinhamento tácito, quando o espírito crítico se atenua e o contraditório perde espaço. Quando esse equilíbrio se rompe, as correções tendem a ser abruptas, quase bruscas, como se a crítica represada precisasse recuperar, em poucos movimentos, o tempo em que permaneceu contida.

O que aconteceu, afinal?

São apenas alguns exemplos dessa impressionante mudança na linha editorial da grande imprensa. Não cabe aqui julgar se estão certos ou errados. O que chama a atenção é a rapidez e a intensidade com que essa chave foi virada depois de tanto tempo de uma postura relativamente homogênea.

A pergunta que se impõe é inevitável: trata-se de uma súbita tomada de consciência sobre o que efetivamente estava acontecendo ou há motivos que ainda não se mostram visíveis? Nas rodas de conversa, este é o assunto do momento. O que terá levado a imprensa a mudar tanto, e tão repentinamente? Quem arrisca um palpite? Siga pelo Instagram: @polito


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