
por Reinaldo Polito
Publicado em 19/07/2026, às 08h00
No dia 16 deste mês, quinta-feira, morreu, aos 83 anos, Renato Machado, dono de uma das vozes mais marcantes da televisão brasileira. Dedicou mais de 40 anos de sua vida à televisão. De 1996 a 2011, deu bom dia aos brasileiros à frente de um dos principais telejornais da Rede Globo, o Bom Dia Brasil.
Sua voz grave, sonora e muito bem timbrada era inconfundível. A presença na tela também chamava a atenção. Elegante, com os cabelos grisalhos, o semblante sereno e os óculos de aros grossos, transmitia firmeza e equilíbrio. Logo cedo, quando iniciava sua apresentação, tinha a companhia dos telespectadores que se arrumavam para ir ao trabalho.
Foram longos 15 anos transmitindo as notícias mais importantes para que todos pudessem sair de casa bem-informados. Durante a maior parte desse período, acumulou as funções de âncora e editor-chefe. Além do noticiário, entrevistava personalidades renomadas e comentava assuntos ligados ao cinema, ao comportamento e à gastronomia.
Lembro-me de um fato bastante curioso. Como um de seus telespectadores habituais, eu também vestia o terno e colocava a gravata enquanto assistia ao programa. Em certa manhã, o entrevistado era um ministro recém-empossado. Embora tivesse de responder a perguntas simples sobre a sua pasta, devido ao nervosismo, saiu-se muito mal.
Pensei: com esse tipo de comunicação, esse ministro não vai muito longe. Ao chegar à minha escola para ministrar as aulas de oratória daquele dia, a secretária disse que havia uma pessoa querendo falar comigo com urgência. Já havia feito várias tentativas de contato. Retornei a chamada. Era o assessor do tal ministro.
Ele pediu que eu atendesse o ministro com a maior urgência possível. Começamos o treinamento logo no dia seguinte. Foi um dos resultados mais gratificantes que alcancei como professor. Em pouco tempo, ele já estava brilhando nas tribunas e nas entrevistas. Até hoje é um grande orador. E tudo aconteceu por causa da entrevista atabalhoada que concedeu a Renato Machado.
Outro aspecto curioso é que, ao observar a forma pausada de Renato se comunicar, comprovei que essa maneira de se expressar transmitia bastante credibilidade. Usei esse aprendizado para orientar muitos de meus alunos ao longo das últimas décadas e o incorporei à minha própria maneira de falar.
É evidente que não bastava falar pausadamente. Para que houvesse boa expressividade, era preciso usar o tom de voz adequado e destacar, com a ênfase apropriada, as palavras relevantes dentro das frases. Nada muito diferente do que havia encontrado nos livros clássicos, especialmente no Manual de califasia e arte de dizer, de autoria do meu saudoso amigo, professor Silveira Bueno, obra lançada em 1930.
Dizia o mestre: “Califasia é a arte de tornar a palavra distinta, correta, expressiva e agradável”. Ora, essa era a definição perfeita para a comunicação de Renato Machado. Nada melhor para quem vive do ensino da oratória do que ver, na prática, aquilo que os melhores autores ensinaram em suas obras.
Outro aspecto fundamental na maneira de se expressar de Renato era o tom conversacional que empregava em suas apresentações. Independentemente da importância do assunto ou da característica do tema, jamais falava de forma empolada ou artificial. Desde o instante em que cumprimentava os telespectadores até o momento em que se despedia, sua comunicação permanecia natural e espontânea.
O jornalista atuou também no Jornal da Globo e cobriu acontecimentos internacionais de enorme repercussão, como o acidente nuclear de Chernobyl, a Guerra das Malvinas e a Guerra do Golfo. Teve uma passagem pelo escritório da emissora em Nova York e trabalhou durante anos como correspondente em Londres.
Uma de suas grandes paixões foi o vinho. Tornou-se um especialista renomado e bastante respeitado. Entre os projetos que empreendeu nessa área estão os programas Menu Confiança e Reserva Especial, exibidos pelo GNT.
Dedicou-se com tanto envolvimento ao tema que, em 2014, produziu para o Jornal Hoje uma série de reportagens sobre a Provença, incluindo uma dedicada aos vinhos da região. Levou a cabo ainda o documentário Uma Semana na Provence, transmitido pelo canal Sabor & Arte.
Publicou livros e idealizou cursos. Uma volta curiosa às origens dessa paixão ocorreu em 2008, quando escreveu o prefácio da edição brasileira do Guia de vinhos, de Hugh Johnson. O autor já tivera papel importante em sua formação: em 1971, Renato encontrara em Londres a primeira edição de História do vinho, obra que o conquistou definitivamente para o tema.
Enfim, deixou sua marca de profissionalismo e competência. E, assim como fez comigo, certamente influenciou muitas pessoas que aprenderam com a excelência da sua comunicação. Renato Machado se despede, mas deixa como legado uma maneira elegante, serena e natural de conversar com o público
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