Amazônia e o Cerrado também enfrentam aumentos significativos nas temperaturas

Gabriela Thier Publicado em 05/11/2025, às 15h19
Recentemente, o MapBiomas divulgou dados alarmantes sobre o aumento da temperatura nos biomas do Pantanal e da Amazônia, que estão entre os mais afetados do Brasil nas últimas quatro décadas. Segundo informações apresentadas na nova plataforma MapBiomas Atmosfera, o Pantanal registrou um incremento médio de 1,9°C, enquanto a Amazônia viu uma elevação de 1,2°C.
A nova ferramenta utiliza imagens de satélite e modelagem de dados para mapear as variações de temperatura e precipitação no Brasil, abrangendo o período de 1985 a 2024, além de fornecer dados sobre poluentes atmosféricos entre 2003 e 2024.
Em uma análise abrangente, foi constatado que a temperatura média no Brasil aumentou em uma taxa de 0,29°C por década, totalizando um acréscimo de 1,2°C ao longo desse intervalo. Contudo, os dados indicam discrepâncias significativas entre os diferentes biomas quanto à intensidade do aquecimento.
O Pantanal apresenta a taxa mais alta de aquecimento, com 0,47°C por década. O Cerrado segue com 0,31°C por década, enquanto a Amazônia registra um aumento de 0,29°C por década. Por outro lado, os biomas costeiros mostram um ritmo mais moderado: Caatinga (0,25°C/década), Mata Atlântica (0,21°C/década) e Pampa (0,14°C/década).
A professora Luciana Rizzo, do laboratório de Física Atmosférica da Universidade de São Paulo (USP) e membro do MapBiomas Atmosfera, ressalta que "os dados demonstram um crescimento sistemático da temperatura em todo o território brasileiro desde 1985", destacando que o ano anterior foi particularmente crítico e não se trata de um evento isolado.
Os recordes mencionados referem-se às temperaturas elevadas observadas na Amazônia e no Pantanal em 2024. Ao longo das quatro últimas décadas, as médias desses biomas foram de 25,6ºC e 26,2ºC. No entanto, no último ano analisado, essas médias aumentaram em 1,5°C e 1,8°C respectivamente. Esses números evidenciam uma tendência crescente de eventos climáticos extremos na região.
O MapBiomas também indica que estados com maior extensão territorial como Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Piauí enfrentam taxas aceleradas de aumento térmico que variam entre 0,34°C a 0,40°C por década. Em contrapartida, estados costeiros como Rio Grande do Norte e Alagoas apresentam taxas menores (0,10°C a 0,12°C/década), enquanto a região metropolitana de São Paulo possui uma taxa intermediária de 0,19°C por década.
Desmatamento e Aumento Térmico
Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas, destaca que desde 1985 a Amazônia perdeu aproximadamente 52 milhões de hectares de vegetação nativa – uma redução equivalente a 13%. Ele explica que essa perda florestal altera as trocas de calor e vapor d'água na atmosfera localmente e contribui para temperaturas mais elevadas.
Um estudo citado pelo MapBiomas e publicado na revista Nature Geoscience revela que o desmatamento é responsável por cerca de 74% da diminuição das chuvas na Amazônia durante a estação seca e por aproximadamente 16% do aumento térmico observado. Essa condição climática mais seca intensifica a ocorrência de incêndios florestais.
A qualidade do ar na região Norte foi considerada pior do que em áreas urbanizadas do Sudeste em 2024. Luciana Rizzo relaciona essa degradação à fumaça resultante dos incêndios florestais predominantes na estação seca.
No ano passado, a precipitação na Amazônia ficou abaixo da média histórica em cerca de 448 milímetros (mm), representando uma redução significativa de 20%. Em algumas localidades dessa região tropical, a diminuição alcançou até mesmo mil milímetros anuais. Esse cenário impactou diretamente o aumento da área devastada por queimadas na Amazônia em 2023, que totalizou impressionantes 15,6 milhões de hectares.
Paulo Artaxo, professor da USP e colaborador do MapBiomas Atmosfera, ressalta que as tendências atuais observadas nos dados refletem os alertas contidos nos últimos três relatórios do IPCC sobre mudanças climáticas.
A crescente média das temperaturas afeta todos os biomas brasileiros. O Pantanal vivenciou um aumento médio significativo de 1,9°C nas últimas quatro décadas; essa área depende criticamente das chuvas na Bacia do Alto Paraguai. Em 2024 essa bacia registrou precipitações abaixo da média em aproximadamente 314 mm — totalizando períodos extensos sem chuvas.
Artaxo acredita que a nova plataforma pode desempenhar um papel crucial na proteção dos ecossistemas brasileiros ao fornecer dados fundamentados para políticas públicas efetivas visando à mitigação dos impactos climáticos.
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