Pesquisa PoderData mostra que 52% defendem maior aproximação comercial com os chineses, enquanto 35% escolhem os norte-americanos; resultado representa uma virada de 44 pontos na comparação com 2025.

Ana Beatriz Silva Publicado em 24/07/2026, às 19h58
Uma pesquisa revela que 52% dos brasileiros preferem fortalecer relações comerciais com a China, em contraste com 35% que optam pelos Estados Unidos, indicando uma mudança significativa na percepção pública em relação a um ano atrás.
Os dados mostram que as exportações brasileiras para a China cresceram 21,9% no primeiro semestre de 2026, enquanto as destinadas aos EUA caíram 13%, refletindo a crescente importância econômica da China para o Brasil.
Em meio a tensões comerciais e tarifas impostas pelos EUA, o governo brasileiro, sob a liderança de Lula, tem enfatizado a diversificação de mercados, enquanto a pesquisa destaca uma preferência regional pela China, especialmente no Nordeste do país.
A maioria dos brasileiros prefere que o país fortaleça suas relações comerciais com a China em vez de priorizar os Estados Unidos. Segundo pesquisa PoderData divulgada nesta sexta-feira, 24 de julho, 52% dos entrevistados escolheram o país asiático, enquanto 35% defenderam maior aproximação com os norte-americanos. Outros 13% não responderam.
O resultado revela uma mudança expressiva na percepção da população em apenas um ano. Em julho de 2025, 59% consideravam melhor para o Brasil manter mais relações comerciais com os Estados Unidos, contra 32% que preferiam a China.
Naquele momento, os Estados Unidos lideravam por 27 pontos percentuais. Agora, a China aparece 17 pontos à frente. Na prática, houve uma inversão de 44 pontos na vantagem entre as duas potências.
A pergunta apresentada aos participantes foi direta: “Você acha que é melhor o Brasil ter mais relações comerciais com a China ou com os Estados Unidos?”. Portanto, o levantamento mede uma preferência especificamente comercial. O resultado não deve ser interpretado automaticamente como apoio político ao governo chinês ou rejeição à sociedade norte-americana.
Tarifas ampliam tensão entre Brasil e Estados Unidos
A pesquisa foi realizada em um momento de aumento das tensões comerciais entre Brasília e Washington. O governo do presidente Donald Trump confirmou novas tarifas sobre produtos brasileiros e apresentou acusações de práticas comerciais desleais, provocando reações do governo brasileiro.
Em julho de 2025, os Estados Unidos já haviam anunciado uma tarifa de 50% sobre determinados produtos brasileiros. Parte da taxação foi posteriormente revertida. Em junho de 2026, Washington apresentou uma nova proposta de tarifa de 25%, confirmada em 15 de julho. Dias depois, foi anunciada uma sobretaxa adicional de 12,5% sobre produtos do Brasil.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou as críticas ao governo norte-americano e passou a destacar a necessidade de defesa da soberania nacional e de diversificação dos mercados para os produtos brasileiros.
Embora o levantamento tenha sido realizado durante essa escalada, a pesquisa, isoladamente, não permite concluir que as tarifas foram a única causa da mudança de opinião. O contexto comercial, entretanto, ajuda a explicar por que a relação com os Estados Unidos ganhou maior espaço no debate público.
Outro levantamento do PoderData, realizado entre 12 e 15 de julho, mostrou que 42% dos eleitores consideravam negativo o eventual apoio de Trump a um candidato à Presidência do Brasil.
China já ocupa posição muito maior no comércio brasileiro
A preferência registrada pela pesquisa também acompanha o peso crescente da China na economia brasileira.
Dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que o Brasil exportou US$ 58,32 bilhões para a China no primeiro semestre de 2026. O valor representa crescimento de 21,9% em comparação com o mesmo período de 2025 e corresponde a 31,6% de todas as exportações brasileiras.
No mesmo período, as exportações destinadas aos Estados Unidos somaram US$ 17,43 bilhões, queda de 13% em relação ao primeiro semestre do ano anterior. O mercado norte-americano respondeu por 9,4% das vendas externas do Brasil.
A corrente de comércio com a China, que considera exportações e importações, chegou a US$ 96,87 bilhões nos seis primeiros meses de 2026. O Brasil acumulou superávit de US$ 19,78 bilhões nessas transações.
Com os Estados Unidos, a corrente de comércio ficou em US$ 36,38 bilhões no mesmo período, com déficit brasileiro de US$ 1,52 bilhão.
Os números mostram que, atualmente, o mercado chinês absorve mais de três vezes o valor vendido pelo Brasil aos Estados Unidos. A diferença ajuda a compreender por que Pequim ganhou relevância não apenas na diplomacia, mas também na percepção econômica da população.
Nordeste registra maior preferência pela China
O recorte regional mostra que a aproximação com a China é defendida principalmente no Nordeste. Na região, 60% escolheram o país asiático e 28% preferiram os Estados Unidos.
No Sudeste, a China aparece com 51%, contra 35% dos norte-americanos. No Sul, o resultado é de 47% a 40%. No Norte, 46% escolheram a China e 42%, os Estados Unidos.
O Centro Oeste foi a única região em que os Estados Unidos apareceram numericamente à frente, com 46%, contra 45% da China. Como a margem de erro específica desse grupo é de sete pontos percentuais, os resultados estão tecnicamente empatados.
Preferência muda conforme renda e escolaridade
A China também registra maior apoio entre os entrevistados de menor renda. Entre aqueles com renda familiar de até dois salários mínimos, 55% preferem maior aproximação com os chineses e 33% escolhem os Estados Unidos.
Na faixa de dois a cinco salários mínimos, o resultado é de 51% para a China e 37% para os Estados Unidos. Entre os que recebem mais de cinco salários mínimos, os norte-americanos aparecem com 44% e os chineses com 42%. Considerando a margem de erro de 4,3 pontos desse grupo, há empate técnico.
Entre os participantes com ensino fundamental, 54% escolheram a China e 33% preferiram os Estados Unidos. A vantagem diminui entre os entrevistados com ensino superior, grupo no qual os chineses aparecem com 49% e os norte-americanos com 37%.
A preferência pela China foi de 52% tanto entre homens quanto entre mulheres. O país asiático também lidera em todas as faixas etárias analisadas, embora a vantagem seja menor entre pessoas com 60 anos ou mais.
Metodologia da pesquisa
O PoderData realizou 2.500 entrevistas entre os dias 18 e 20 de julho de 2026. Os participantes estavam distribuídos em 147 municípios das 27 unidades da Federação.
As entrevistas foram feitas por ligações para celulares e telefones fixos, utilizando um sistema automatizado no qual os participantes ouviam as perguntas e respondiam por meio do teclado do aparelho.
A margem de erro geral é de dois pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%. O levantamento foi financiado com recursos próprios do PoderData. Como não se trata de uma pesquisa de intenção de voto, o estudo não precisa ser registrado na Justiça Eleitoral.
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