Diário de São Paulo
Siga-nos

PF investiga R$ 61 milhões de filme sobre Bolsonaro e apura possível favorecimento ao Banco Master

Inquérito autorizado por André Mendonça examina suspeitas de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e corrupção, além da possível atuação parlamentar de Flávio Bolsonaro em benefício do banco de Daniel Vorcaro.

O ministro André Mendonça autorizou a Polícia Federal a investigar o destino de aproximadamente R$ 61 milhões atribuídos a Daniel Vorcaro para a produção do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro - Imagem: Reprodução
O ministro André Mendonça autorizou a Polícia Federal a investigar o destino de aproximadamente R$ 61 milhões atribuídos a Daniel Vorcaro para a produção do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro - Imagem: Reprodução

Ana Beatriz Silva Publicado em 24/07/2026, às 14h41


O ministro André Mendonça autorizou a abertura de um inquérito pela Polícia Federal para investigar a destinação de R$ 61 milhões ao filme 'Dark Horse', sobre Jair Bolsonaro, focando em possíveis contrapartidas políticas e a atuação de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Flávio Bolsonaro é mencionado em negociações que envolvem um aporte de US$ 24 milhões para a produção do filme, com transferências significativas ocorrendo entre fevereiro e maio de 2025, levantando suspeitas de crimes como lavagem de dinheiro e corrupção.

A investigação está em andamento sob sigilo, com a PF analisando documentos e registros financeiros, enquanto a defesa de Flávio Bolsonaro solicita a centralização das apurações no gabinete de Mendonça para evitar decisões conflitantes, que ainda não foram decididas pelo STF.

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a Polícia Federal a abrir um inquérito para investigar os recursos destinados ao filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A apuração terá como foco o caminho de aproximadamente R$ 61 milhões atribuídos ao antigo controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e a possível existência de contrapartidas políticas relacionadas aos pagamentos.

A autorização foi concedida após pedido formalizado pela Polícia Federal em 8 de julho e parecer favorável da Procuradoria-Geral da República. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou ter identificado elementos suficientes para a abertura da investigação. O procedimento tramita sob sigilo.

Segundo informações já divulgadas sobre o caso, Flávio Bolsonaro teria negociado com Vorcaro um aporte de US$ 24 milhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões, para financiar a produção do longa. Documentos e registros bancários indicariam que pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram transferidos entre fevereiro e maio de 2025.

As transferências teriam passado pela Entre Investimentos e Participações e sido direcionadas ao Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos. A Polícia Federal pretende verificar a origem dos recursos, quem controlava as operações financeiras e se o dinheiro foi integralmente empregado na produção cinematográfica.

A investigação deve analisar possíveis crimes de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e corrupção. Além de Vorcaro e Flávio Bolsonaro, a apuração inclui a atuação de Eduardo Bolsonaro, do publicitário Thiago Miranda e de sócios brasileiros envolvidos nas estruturas empresariais utilizadas para movimentar os recursos.

Uma das linhas de investigação busca esclarecer se parte do dinheiro teria sido destinada a despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O ex-parlamentar, que participou do projeto como produtor executivo, nega que os recursos tenham sido utilizados para custear sua permanência no país.

A Procuradoria-Geral da República também solicitou que a Polícia Federal levante emendas parlamentares apresentadas por Flávio Bolsonaro. O objetivo é verificar se alguma destinação de recursos públicos ou outra iniciativa parlamentar beneficiou o Banco Master, empresas relacionadas ao grupo ou pessoas ligadas a Daniel Vorcaro.

Até o momento, não foram divulgados pedidos de busca e apreensão ou de quebra de sigilos bancários e fiscais nessa nova frente de investigação. Como o caso envolve pessoas com foro por prerrogativa de função, medidas dessa natureza precisam ser submetidas ao Supremo Tribunal Federal.

Mensagens deram origem à investigação

O caso ganhou repercussão nacional em maio, após a divulgação de mensagens, áudios, documentos e comprovantes bancários relacionados às negociações. Em uma das conversas, Flávio Bolsonaro cobrava a liberação de parcelas destinadas ao projeto e demonstrava preocupação com os compromissos financeiros assumidos pela produção.

O senador inicialmente negou que tivesse pedido dinheiro a Vorcaro. Depois da divulgação dos áudios, confirmou que buscou recursos para o filme, mas afirmou que se tratava de patrocínio privado para uma produção privada. Flávio nega ter recebido vantagens pessoais, oferecido benefícios ao banqueiro ou intermediado negócios com o poder público.

A própria produtora do filme apresentou versões diferentes sobre o financiamento. Em um primeiro momento, a Go Up Entertainment afirmou que não havia recebido recursos de Vorcaro, do Banco Master ou de empresas controladas pelo empresário. Posteriormente, uma das responsáveis pela empresa declarou que o banqueiro havia financiado mais de 90% da produção.

Duas investigações podem se cruzar no STF

O financiamento privado atribuído a Vorcaro não é a única frente aberta sobre o filme. Outra investigação, autorizada pelo ministro Flávio Dino, apura o possível uso de emendas parlamentares destinadas a empresas, organizações e institutos ligados à produtora de “Dark Horse”.

Nessa segunda frente, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União analisam a destinação de R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil, entidade comandada pela empresária Karina da Gama, também ligada à produtora do filme. Há ainda registros de pelo menos R$ 700 mil em recursos destinados por deputados estaduais de São Paulo a entidades relacionadas ao mesmo grupo.

A investigação conduzida sob a relatoria de Dino começou antes da divulgação das mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Ela examina repasses realizados por cinco deputados federais a empresas e organizações, entre elas uma entidade pertencente à mesma empresária responsável pela produtora.

A existência das duas apurações pode provocar uma discussão sobre competência dentro do Supremo. Flávio Dino concentra processos relacionados à transparência e à destinação de emendas parlamentares. André Mendonça, por outro lado, conduz as principais investigações relacionadas ao Banco Master e a Daniel Vorcaro.

A defesa de Flávio Bolsonaro pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, que todas as apurações relacionadas ao filme sejam concentradas no gabinete de André Mendonça. Os advogados argumentam que a centralização evitaria decisões conflitantes e medidas contraditórias. Até a atualização mais recente, Fachin ainda não havia decidido sobre o pedido.

Mendonça afasta expectativa de tratamento diferenciado

Segundo informações de bastidores publicadas pela Coluna do Estadão, André Mendonça teria indicado a interlocutores que conduzirá o inquérito de acordo com as provas e sem tratamento diferenciado para Flávio Bolsonaro.

O ministro também teria rejeitado a interpretação de que uma eventual responsabilização do senador representaria uma traição à família Bolsonaro, responsável por sua indicação ao Supremo em 2021. Não houve manifestação pública formal de Mendonça sobre essas conversas de bastidores.

A abertura do inquérito não representa condenação ou reconhecimento de culpa. A Polícia Federal deverá agora rastrear as transferências, analisar contratos, documentos, prestações de contas, registros bancários e eventuais atos parlamentares relacionados ao Banco Master.

Ao final das diligências, a PF poderá recomendar o arquivamento da investigação ou apresentar indícios para eventual responsabilização. Qualquer denúncia dependerá de nova análise da Procuradoria-Geral da República e de decisões posteriores do Supremo Tribunal Federal.


últimas notícias