Lucas Ferraz, ex-secretário de Comércio Exterior no governo Bolsonaro, foi contratado por associação do setor têxtil após ter suspendido medidas antidumping que beneficiaram grandes empresas do ramo.

Redação Publicado em 12/05/2026, às 09h22
Lucas Ferraz, ex-secretário de Comércio Exterior do governo Bolsonaro, voltou a ser alvo de discussões sobre ética ao atuar como consultor para empresas beneficiadas por suas decisões no governo, levantando preocupações sobre 'porta giratória'.
Durante sua gestão, Ferraz assinou um parecer que impediu a aplicação de sobretaxas sobre fios de poliéster importados, beneficiando grandes indústrias têxteis, e essa decisão foi posteriormente confirmada e derrubada pelo governo Lula.
Atualmente, Ferraz defende a manutenção da suspensão das tarifas antidumping em um novo parecer, enquanto nega conflitos éticos, afirmando que sua contratação ocorreu após o período de quarentena legal e que sua atuação é em um contexto diferente do anterior.
O ex-secretário de Comércio Exterior do governo Jair Bolsonaro, Lucas Ferraz, voltou ao centro de debates sobre ética na relação entre setor público e iniciativa privada após assumir atuação em favor de empresas que haviam sido beneficiadas por decisões tomadas durante sua passagem pelo governo federal.
Ferraz foi contratado pela Associação Brasileira de Matérias-Primas Têxteis (Abratex) para elaborar parecer técnico em defesa da manutenção da suspensão de medidas antidumping sobre importações de fios de poliéster da China e da Índia.
O tema ganhou repercussão por envolver um possível caso de “porta giratória” — quando ex-integrantes do governo passam a trabalhar diretamente para setores impactados por decisões tomadas durante o exercício do cargo público.
Enquanto secretário de Comércio Exterior, Lucas Ferraz assinou, em 2021, parecer que considerava contrária ao “interesse público” a aplicação de sobretaxas sobre os fios de poliéster importados. A decisão evitou aumento de custos para grandes indústrias têxteis e de confecção do país.
Entre as empresas beneficiadas estavam gigantes do setor, como Hering, Malwee, Dohler e Riachuelo.
Na época, o governo argumentou que a taxação poderia encarecer roupas e produtos derivados de poliéster em pleno período pré-eleitoral. A medida foi confirmada pela Câmara de Comércio Exterior em 2022 e, posteriormente, derrubada de forma definitiva já durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Agora, uma nova investigação sobre eventual retomada das tarifas antidumping está em curso. E foi justamente nesse processo que Lucas Ferraz reapareceu como consultor da Abratex, defendendo novamente os interesses do setor têxtil.
No parecer apresentado em dezembro de 2025, o ex-secretário afirmou que medidas antidumping poderiam fortalecer fabricantes nacionais de fios de poliéster, mas também provocar impactos negativos sobre a cadeia produtiva têxtil brasileira, especialmente no setor de confecções.
Em resposta às críticas, Ferraz negou qualquer conflito ético. Segundo ele, sua contratação ocorreu cerca de dois anos após deixar o governo, período superior à quarentena de seis meses prevista na legislação brasileira.
O ex-secretário também destacou que atualmente atua como professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e consultor especializado em comércio exterior, reforçando que o parecer foi elaborado dentro de uma nova investigação, diferente daquela conduzida durante sua gestão.
O episódio reacende o debate sobre limites éticos entre decisões públicas e interesses privados, especialmente em setores estratégicos da economia nacional.
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