Presidente dos Estados Unidos disse que o cessar-fogo com Teerã “acabou”, confirmou ataque à Ilha de Kharg e revelou ter dado ordem para preservar instalações petrolíferas: “Não encostem no petróleo”.

Ana Beatriz Silva Publicado em 08/07/2026, às 18h06
O presidente dos EUA, Donald Trump, intensificou as ameaças ao Irã, sugerindo a possibilidade de um 'grande ataque' em resposta a recentes agressões iranianas no Estreito de Hormuz, o que poderia impactar significativamente o preço global do petróleo.
A Ilha de Kharg, crucial para as exportações de petróleo iranianas, foi mencionada como alvo potencial, com Trump afirmando que as forças dos EUA poderiam assumir o controle da área, o que afetaria diretamente a principal fonte de receita do Irã.
As reações do mercado foram imediatas, com o preço do petróleo Brent subindo mais de 5%, enquanto a Organização Marítima Internacional pediu contenção diante da crescente tensão, que ameaça a segurança de uma das rotas marítimas mais importantes do mundo.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevou novamente o tom contra o Irã nesta quarta-feira, 8 de julho, ao afirmar que as forças norte-americanas podem realizar um novo “grande ataque” contra o país. A declaração ocorreu durante a cúpula da Otan, em Ancara, na Turquia, em meio a uma nova escalada militar no Golfo Pérsico e ao aumento das preocupações sobre o impacto da crise no preço global do petróleo.
Trump declarou que o acordo provisório de cessar-fogo com Teerã “acabou” após novos ataques atribuídos ao Irã contra embarcações comerciais no Estreito de Hormuz e contra interesses militares norte-americanos na região. Segundo a Associated Press, os Estados Unidos anunciaram novas ofensivas contra alvos iranianos sob o argumento de “degradar” a capacidade de Teerã de ameaçar a liberdade de navegação em uma das rotas marítimas mais importantes do mundo.
O ponto mais sensível da fala de Trump foi a confirmação de que os EUA atacaram a Ilha de Kharg, principal centro de exportação de petróleo do Irã. O presidente afirmou que ordenou aos militares que não atingissem diretamente a infraestrutura petrolífera da ilha. Segundo Trump, a orientação foi: “Não encostem no petróleo”. Em seguida, ele voltou a sugerir que os Estados Unidos poderiam tomar o controle da ilha, dizendo que “não há nada” que o Irã possa fazer.
A Ilha de Kharg é considerada o coração do sistema de exportação de petróleo iraniano. Localizada no Golfo Pérsico, a cerca de 55 quilômetros da costa do Irã, em Bushehr, ela tem posição estratégica por permitir o carregamento de grandes petroleiros em águas profundas. Segundo a Al Jazeera, cerca de 90% das exportações de petróleo bruto do Irã passam pela ilha, que movimenta aproximadamente 950 milhões de barris por ano.
Por isso, a ameaça de Trump não tem apenas peso militar. Ela também representa uma pressão direta sobre a principal fonte de receita externa do regime iraniano. Um ataque capaz de interromper as operações de Kharg poderia reduzir drasticamente a capacidade do Irã de vender petróleo no mercado internacional, afetar compradores asiáticos, especialmente a China, e provocar nova disparada nos preços globais de energia.
A reação dos mercados foi imediata. De acordo com a RFE/RL, após Trump afirmar que o acordo com o Irã havia terminado, o petróleo Brent subiu mais de 5%, chegando a cerca de US$ 78 por barril. A Associated Press também registrou alta no petróleo norte-americano e no Brent, além de alertas de especialistas sobre o risco de impacto nos combustíveis, já que o petróleo bruto compõe parte relevante do preço final da gasolina.
O Estreito de Hormuz está no centro da crise. A passagem liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e é uma das principais rotas de transporte de petróleo e gás natural do planeta. Antes da atual escalada, cerca de um quinto do comércio global de energia passava pela região, segundo a Al Jazeera e a Reuters.
Para Teerã, o controle sobre Hormuz se tornou uma espécie de arma estratégica. A Reuters informou que autoridades iranianas passaram a tratar o estreito como sua “arma de ouro”, uma alavanca de pressão mais importante, no momento, do que até mesmo a disputa nuclear. Segundo a agência, há divergência entre Washington e Teerã sobre o significado do acordo provisório que previa passagem segura de embarcações por 60 dias.
O Irã interpreta o texto como reconhecimento de sua autoridade para administrar o fluxo no estreito. Já os Estados Unidos e países do Golfo rejeitam essa leitura e defendem que Teerã apenas deveria facilitar a navegação, sem impor controle armado ou restrições. Essa disputa aumentou a tensão após relatos de ataques contra navios e novas ofensivas norte-americanas contra alvos iranianos.
Além de Kharg, Trump também mencionou a possibilidade de atingir outros pontos sensíveis da infraestrutura iraniana, incluindo energia e instalações de dessalinização, embora tenha indicado que espera não precisar ampliar a ofensiva nesses termos. A Associated Press informou que o presidente chegou a dizer que as forças dos EUA poderiam “finalizar o trabalho”, ainda que também tenha afirmado que a nova rodada de combates não necessariamente significaria uma guerra prolongada.
Do lado iraniano, autoridades reagiram com irritação às ameaças norte-americanas. Segundo a RFE/RL, Mohammad Baqer Zolqadr, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, classificou as ameaças de Trump como “delirantes” e afirmou que o povo iraniano não responde à linguagem da intimidação.
A crise também já afeta o transporte marítimo. A Organização Marítima Internacional condenou os ataques recentes a navios no Estreito de Hormuz e pediu máxima contenção. Segundo a AP, parte das empresas do setor passou a reavaliar a segurança de enviar embarcações tripuladas pela região, diante do risco de novos ataques e da volatilidade militar.
A situação preocupa porque combina três elementos explosivos: confronto direto entre Estados Unidos e Irã, ameaça a uma infraestrutura essencial de petróleo e risco de interrupção em uma das rotas marítimas mais sensíveis do planeta. Mesmo que Washington tente preservar o petróleo de Kharg neste momento, a simples hipótese de tomar a ilha já amplia a incerteza sobre abastecimento, preços e segurança regional.
Com a nova ameaça, Trump tenta reforçar uma mensagem de força: o Irã não poderá usar Hormuz e Kharg como instrumentos de chantagem sem sofrer retaliação. Mas a aposta também carrega alto risco. Qualquer erro de cálculo pode transformar uma ofensiva limitada em uma crise de energia global, com impacto direto sobre mercados, combustíveis e relações diplomáticas no Oriente Médio.
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