Dani Rodrik alerta que o 'tarifaço' pode ser autodestrutivo e não atinge os objetivos de revitalização da indústria local

Gabriela Thier Publicado em 23/08/2025, às 15h50
O recente aumento de tarifas imposto pelo governo dos Estados Unidos, sob a liderança do presidente Donald Trump, tem sido alvo de críticas contundentes por parte de especialistas em economia. Dani Rodrik, professor da Universidade de Harvard e respeitado economista, expressou sua visão de que tais medidas não apenas falham em estimular a economia americana, mas também não conseguem garantir a criação de empregos dignos para os cidadãos dos EUA.
Em suas declarações, Rodrik alertou que o "tarifaço" pode resultar em consequências autodestrutivas para a economia norte-americana. Ele destaca que as tarifas sobre produtos importados, uma das estratégias centrais da política externa de Trump, não alcançam os objetivos proclamados, como a revitalização da indústria local e o fortalecimento da classe média.
"O problema com a abordagem econômica de Trump não é o nacionalismo em si, mas sim a falta de políticas verdadeiramente nacionalistas. As ações atuais não parecem beneficiar o interesse econômico dos Estados Unidos", comentou Rodrik durante sua participação no seminário Globalização, Desenvolvimento e Democracia, promovido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pela Open Society Foundations no Rio de Janeiro.
A nova tarifa de 50% imposta sobre diversas exportações brasileiras entrou em vigor recentemente e afeta 35,9% das mercadorias enviadas ao mercado norte-americano. O governo brasileiro reconhece que essa medida representa aproximadamente 4% do total das exportações do Brasil.
Cerca de 700 produtos foram isentos dessa sobretaxa. Em resposta aos impactos negativos dessa política tarifária, o governo brasileiro lançou o Plano Brasil Soberano para mitigar as consequências para os produtores nacionais.
Rodrik ressaltou que, embora as tarifas possam inicialmente aumentar a arrecadação fiscal ou os lucros das empresas americanas, isso não se traduz automaticamente na criação de empregos qualificados e bem remunerados. "As tarifas podem simplesmente elevar os lucros em determinados setores da manufatura. Contudo, isso não garante que as empresas irão inovar mais ou investir em seus trabalhadores", afirmou o economista.
Ele defendeu que as tarifas devem ser consideradas como medidas temporárias e complementares a políticas internas robustas que promovam o crescimento econômico efetivo. "As tarifas podem servir como um escudo temporário, mas não são a principal solução para atingir os objetivos desejados", acrescentou.
Rodrik utilizou a China como exemplo de um país que tem seguido uma trajetória econômica bem-sucedida ao priorizar suas próprias necessidades econômicas através de políticas bem planejadas.
Além disso, Alex Soros, presidente do Conselho da Open Society, criticou severamente Trumppor seu fechamento da Usaid — Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional — afirmando que cortes nas iniciativas humanitárias resultaram em sérias consequências globais. "Falar como um americano, isso definitivamente não representa um interesse americano", disse Soros.
No mesmo evento, a Open Society Foundations anunciou um investimento focado na América Latina para apoiar populações marginalizadas. A iniciativa busca atender diretamente às necessidades de comunidades indígenas, afrodescendentes e mulheres no Brasil, Colômbia e México através da implementação conjunta de políticas públicas.
Tereza Campello, diretora Socioambiental do BNDES, enfatizou que os cortes orçamentários realizados sob a administração Trump têm um impacto desproporcional nos países mais pobres. "Não podemos enfrentar desigualdades globais isoladamente; é essencial unir esforços com aqueles comprometidos com a democracia para abordar questões além das meramente econômicas", concluiu Campello.
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