Líderes do Brics se reúnem para discutir estratégias comerciais em meio a tarifas dos EUA

Gabriela Thier Publicado em 08/09/2025, às 15h49
Na última segunda-feira (8), os líderes dos países integrantes do Brics se reuniram em uma cúpula virtual, com o propósito de discutir estratégias para o fortalecimento das relações comerciais entre as nações do bloco emergente. A reunião foi convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que destacou a importância do multilateralismo em um contexto marcado pelo aumento das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos.
Em seu discurso, Lula ressaltou que "o comércio e a integração financeira entre nossos países representam uma alternativa segura para atenuar os efeitos do protecionismo". O presidente enfatizou a legitimidade do Brics como um grupo que pode liderar a modernização do sistema multilateral de comércio, alinhando-o às necessidades de desenvolvimento das nações em desenvolvimento.
O Novo Banco de Desenvolvimento, vinculado ao Brics, foi mencionado por Lulacomo um instrumento crucial para diversificar as bases econômicas e fomentar a complementaridade entre os membros do bloco. Ele destacou que o grupo representa 40% do PIB mundial, 26% do comércio internacional e quase metade da população global, além de reunir importantes exportadores e consumidores de energia.
"Estamos em posição de promover uma industrialização sustentável que gere empregos e renda, especialmente nos setores de alta tecnologia", afirmou Lula. Ele ainda lembrou que os países do Brics detêm 33% das terras aráveis e são responsáveis por 42% da produção agropecuária mundial.
Lula também abordou a crise de governança global, que considera uma questão estrutural, defendendo que o Brics deve demonstrar que a cooperação prevalece sobre rivalidades. Ele criticou a estagnação da Organização Mundial do Comércio (OMC), citando que princípios fundamentais do livre comércio têm sido desrespeitados devido a medidas unilaterais.
A normalização da "chantagem tarifária" foi outro ponto abordado pelo presidente brasileiro, que afirmou que tais práticas ameaçam instituições democráticas e restringem a liberdade comercial entre países amigos. A cúpula ocorre em um momento em que o Brasil preside o Brics, período em que Lula tem defendido reformas em instituições multilaterais como a OMC e o Conselho de Segurança da ONU.
Ele conclamou os líderes presentes a se unirem para a 14ª Conferência Ministerial da OMC, programada para o próximo ano no Camarões. A reunião foi considerada uma oportunidade não apenas para discutir comércio, mas também para compartilhar perspectivas sobre como lidar com os riscos das medidas unilaterais.
Os efeitos das tarifas impostas pela administração norte-americana foram analisados por especialistas como uma estratégia para recuperar competitividade frente à China e como uma forma de pressão política sobre o Brics, visto como uma ameaça à hegemonia dos EUA no cenário global.
A cúpula aconteceu dois meses após um encontro anterior no Rio de Janeiro, onde o presidente dos EUA havia feito advertências aos países alinhados ao bloco. Na ocasião, o líder chinês Xi Jinping apresentou propostas voltadas à criação de uma Iniciativa de Governança Global, um passo potencial em direção a uma nova ordem mundial.
Criado em 2009, o Brics é composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além de outros países admitidos recentemente. Lula também comentou sobre crises internacionais atuais, como o conflito na Ucrânia e as tensões no Oriente Médio, reiterando que intervenções externas não devem ser justificadas por questões internas dos países soberanos.
O presidente brasileiro aproveitou a reunião para convidar os líderes a participarem da COP30 em Belém no próximo ano e sugeriu a criação de um Conselho Climático da ONU. Ele enfatizou que as consequências das ações unilaterais afetam desproporcionalmente os países em desenvolvimento no contexto das mudanças climáticas.
Por fim, os líderes discutiram preparativos para a próxima Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York. Lula ressaltou que este evento será crucial para promover um "multilateralismo revigorado" e abordar questões relacionadas à governança digital global.
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