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BRICS, SCO e a Nova Arquitetura da Ordem Mundial

BRICS, SCO e a Nova Arquitetura da Ordem Mundial - Imagem: Reprodução / PR / Ricardo Stuckert
BRICS, SCO e a Nova Arquitetura da Ordem Mundial - Imagem: Reprodução / PR / Ricardo Stuckert
Marcus Vinícius De Freitas

por Marcus Vinícius De Freitas

Publicado em 05/09/2025, às 10h04


A reunião da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), realizada em Tianjin, trouxe à luz uma realidade que se consolida com vigor: a transição para uma ordem mundial multipolar já não é mais apenas uma aspiração acadêmica ou uma retórica diplomática, mas um processo em pleno curso. A apresentação, por parte do presidente Xi Jinping, da Global Governance Initiative reafirma o compromisso da China com a construção de um sistema internacional mais inclusivo, democrático e equitativo, em contraste com práticas excludentes marcadas pelo hegemonismo e pela mentalidade da Guerra Fria. Os princípios ali expostos — igualdade soberana, multilateralismo genuíno, centralidade da ONU e foco em resultados concretos — delineiam uma plataforma conceitual que encontra eco direto no BRICS, hoje ampliado e fortalecido.

A expansão do BRICS não é um mero ato protocolar de inclusão de novos membros. Trata-se de um movimento estratégico que amplia a representatividade geográfica, econômica e civilizacional de um agrupamento que já respondia por parcela significativa do PIB mundial, do comércio internacional e da população global. A incorporação de novos países projeta o BRICS como fórum incontornável da governança do século XXI. Para o Brasil, esta expansão significa maior margem de manobra internacional, reduzindo sua dependência das estruturas tradicionais de poder — como FMI e Banco Mundial —, e criando oportunidades de parcerias concretas em energia, infraestrutura, ciência e tecnologia, além de dar densidade a um espaço de negociação menos sujeito a pressões unilaterais.

A SCO, ao adotar uma estratégia de desenvolvimento para a próxima década, ao lançar centros de segurança regionais e ao avançar com a proposta de um banco de desenvolvimento, demonstra que o eixo euroasiático já constrói alternativas institucionais robustas. Essa convergência com o BRICS reforça a ideia de que a multipolaridade não se limita a discursos: está se materializando em plataformas de cooperação financeira, tecnológica e política. O ingresso de países como Laos como parceiros e a aproximação entre Armênia e Paquistão, mediada sob o “Espírito de Xangai”, revelam um ambiente de integração cada vez mais abrangente e pragmático.

Neste contexto, a aproximação entre China, Índia e Rússia adquire centralidade. A despeito de suas divergências históricas, essas potências entendem que a cooperação mútua é a única via capaz de preservar autonomia estratégica e assegurar que o sistema internacional não recaia em uma nova bipolaridade artificial. Para o Brasil, estar nesse círculo ampliado significa participar de decisões que moldarão o futuro da economia e da política globais, em diálogo direto com atores que não apenas desafiam a supremacia ocidental, mas oferecem alternativas concretas de desenvolvimento e financiamento.

A relevância do BRICS para o Brasil reside, portanto, em três dimensões. Em primeiro lugar, confere-lhe voz ampliada num cenário de reconfiguração, permitindo que defenda interesses do Sul Global a partir de uma plataforma de legitimidade crescente. Em segundo, proporciona acesso a instrumentos financeiros inovadores — como o Novo Banco de Desenvolvimento — que podem apoiar projetos estratégicos nacionais sem condicionalidades políticas. Em terceiro, insere o país no coração de um processo histórico de transformação do equilíbrio de poder, reafirmando sua vocação de ponte entre diferentes regiões e tradições civilizacionais.

Ao observarmos a SCO e o BRICS em movimento, percebe-se que ambos expressam a mesma dinâmica: a busca por governança global mais equitativa, a rejeição do unilateralismo e a construção de um espaço de diálogo inclusivo. Para o Brasil, que historicamente oscilou entre a integração hemisférica e a projeção atlântica, a participação ativa neste novo concerto representa não apenas uma opção diplomática, mas uma necessidade estratégica. É no BRICS — agora ampliado — que o Brasil encontrará condições para transformar seu potencial em influência real e sua aspiração de protagonismo em liderança concreta.


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