Soja, minério e petróleo respondem por mais de 60% das vendas; especialistas alertam para riscos e oportunidades de industrialização

Marina Roveda Publicado em 22/10/2025, às 17h31
O Brasil nunca vendeu tanto para a China. Em uma década, o país asiático se tornou o destino de quase um terço das exportações brasileiras, consolidando-se como o principal motor do superávit comercial nacional. Entre 2013 e 2023, as vendas brasileiras para a China somaram US$ 838,8 bilhões, com destaque para soja, minérios e petróleo, que juntos representam mais de 60% do total.
Especialistas, no entanto, apontam que a concentração das exportações em produtos pouco processados pode custar caro à indústria nacional. “Há décadas, o Brasil priorizou exportações em estado bruto, enquanto a China investiu no processamento de grãos e minérios em seus próprios portos”, explica a professora de Relações Internacionais da PUC-Rio, Ana Elisa Saggioro Garcia.
O efeito é visível nos números: em 2023, 90,7% das exportações brasileiras para a China eram de produtos básicos, ante 58,9% da pauta total do país. Paralelamente, o Brasil perdeu posições no ranking de Complexidade Econômica, caindo da 23ª posição em 1998 para a 49ª em 2023.
O crescimento do comércio com a China também está ligado a políticas nacionais, como a Lei Kandir, que isenta do ICMS as exportações de produtos em estado bruto. “O Brasil abriu o mercado à entrada de produtos mais competitivos, mas não aproveitou o superávit para investir em processamento e inovação”, afirma Garcia.
A soja é um exemplo claro dessa dinâmica: o país é o maior produtor e exportador mundial, mas apenas o terceiro maior processador da oleaginosa, atrás da China e dos Estados Unidos. Entre 2014 e 2024, a produção cresceu 79%, enquanto o processamento avançou apenas 48%. Nos minérios, a situação é similar, com a China comprando grandes volumes de insumos para beneficiamento em suas próprias indústrias.
Apesar dos alertas, especialistas reforçam que a desindustrialização não é causada pela China, mas sim por decisões estratégicas internas. “Não podemos culpar a China pela desindustrialização quando não estamos fazendo a lição de casa há 20 anos”, destaca Evandro Carvalho, da FGV.
O risco imediato é a dependência excessiva de um único parceiro comercial. Com 30% das exportações concentradas na China, fatores externos como crises econômicas ou políticas podem afetar significativamente o Brasil. “Qualquer diretor financeiro sabe que não se deve deixar 30% do negócio nas mãos de um único comprador”, comenta Roberto Dumas, do Insper.
Por outro lado, a parceria com a China também abre oportunidades. Montadoras chinesas de veículos elétricos já inauguraram fábricas no Brasil, e há espaço para investimentos conjuntos em energia renovável, indústria química e tecnologia. Segundo Garcia, o país poderia usar a relação para diversificar sua pauta exportadora e estimular ciência e inovação, evitando que o superávit se concentre apenas em produtos básicos.
Na esfera diplomática, o Brasil mantém uma posição de não alinhamento, aproximando-se do gigante asiático sem aderir a projetos estratégicos como a Nova Rota da Seda. O país também precisa navegar com cautela frente a movimentos externos, como o aumento de tarifas dos Estados Unidos, que já impactam exportadores brasileiros.
Em resumo, a relação comercial com a China é estratégica e vantajosa, mas a concentração em commodities e a falta de processamento nacional exigem ações internas para transformar crescimento em desenvolvimento sustentável, garantindo que a economia brasileira não dependa de um único parceiro no futuro.
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