Crescimento da mineração irregular afeta terras indígenas e contamina rios com mercúrio.

Gabriela Nogueira Publicado em 05/11/2025, às 18h36
Um estudo recente aponta que cerca de 77% das áreas de garimpo no Brasil são ilegais, muitas delas localizadas dentro de terras indígenas. O uso do mercúrio na extração de ouro tem provocado graves problemas de contaminação, afetando rios, peixes e populações que dependem desses recursos para sobreviver.
O avanço do garimpo e seus impactos
Nos últimos anos, a atividade garimpeira ilegal se intensificou, configurando uma verdadeira corrida pelo ouro. Além de devastar o meio ambiente, o garimpo ameaça diretamente as comunidades indígenas que vivem nas áreas afetadas.
Embora existam regulamentações para a atividade, a realidade atual é muito diferente da prática artesanal do passado. O que antes era uma extração rudimentar e de baixo impacto se transformou em uma exploração industrializada e agressiva. O crescimento do garimpo ganhou força a partir de 2019, impulsionado pela flexibilização das normas e pela alta do preço do ouro durante a pandemia.
A explosão do garimpo ilegal
Dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostram que o governo vem intensificando operações de fiscalização na Amazônia, tanto em campo quanto via monitoramento por satélite.
De acordo com o MapBiomas, a área hoje afetada pelo garimpo chega a 2.400 km² — quase o dobro da cidade do Rio de Janeiro. Deste total, 77% são ilegais, incluindo áreas protegidas e terras indígenas.
A expansão desordenada da mineração causa desmatamento acelerado e poluição dos cursos d’água, com efeitos diretos sobre a fauna e as populações locais. Um dos casos mais alarmantes é o da comunidade Yanomami, que enfrenta crises humanitárias relacionadas à contaminação ambiental e à escassez de alimentos.
A corrida pelo ouro
Tradicionalmente, o garimpo era uma forma artesanal de extração mineral. Hoje, a atividade movimenta bilhões de reais e envolve redes criminosas organizadas. Em 2023, um esquema descoberto no Pará revelou a movimentação de cerca de R$ 4 bilhões em ouro extraído ilegalmente da Amazônia, enviado para países como Dubai e Suíça.
Desde o início do monitoramento pelo MapBiomas, em 1985, a área destinada ao garimpo cresceu de 181 km² para 2.400 km² — um aumento de mais de 1.200%. O salto mais expressivo ocorreu entre 2019 e 2023, período em que a exploração aumentou 54%.
O Pará é o estado mais afetado, com mais de 141 mil hectares tomados por garimpos. Cidades como Itaituba e Jacareacanga dependem economicamente da atividade, mas convivem com altos índices de pobreza e vulnerabilidade social.
Consequências ambientais e sociais
Os efeitos do garimpo ilegal são devastadores. O desmatamento e o uso indiscriminado de mercúrio causam danos profundos e duradouros ao meio ambiente e à saúde humana.
Desmatamento: a instalação de acampamentos e maquinários destrói grandes extensões de floresta.
Contaminação hídrica: o mercúrio usado na separação do ouro polui rios e peixes, afetando diretamente comunidades ribeirinhas e indígenas.
Conflitos territoriais: a invasão de terras indígenas provoca violência e confrontos.
Financiamento criminal: o garimpo ilegal está ligado ao crime organizado, ao tráfico e à lavagem de dinheiro.
Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) revogou a “presunção de boa-fé” na comercialização do ouro — medida que dificulta a venda de ouro ilegal e representa um avanço importante no combate à mineração ilícita.
O impacto nas terras indígenas
Entre 2016 e 2022, a atividade garimpeira em terras indígenas aumentou mais de oito vezes. As Terras Yanomami e outras reservas no Pará estão entre as mais afetadas.
A chegada massiva de garimpeiros alterou profundamente o modo de vida das comunidades. Os rios contaminados por mercúrio, a perda dos alimentos naturais e a degradação do território geraram crises sanitárias e nutricionais severas.
Diante desse cenário, o governo federal declarou emergência sanitária na Terra Yanomami e iniciou ações emergenciais para garantir atendimento médico, segurança alimentar e retirada dos invasores.
Especialistas alertam
Embora as ações de fiscalização tenham se intensificado, especialistas afirmam que ainda faltam políticas estruturais duradouras. O combate ao garimpo ilegal, defendem, precisa envolver coordenação entre todos os níveis de governo — federal, estadual e municipal — e enfrentar a raiz do problema: o crime organizado e o incentivo financeiro à exploração predatória.
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