
por Marcus Vinicius de Freitas
Publicado em 15/04/2026, às 09h58
Há momentos na história em que os números deixam de ser meros indicadores e passam a funcionar como sinais precursores de transformações mais profundas. O mais recente relatório da Gallup — publicado em 3 de abril de 2026 — oferece precisamente esse tipo de indício: pela primeira vez em quase duas décadas, a China ultrapassou os Estados Unidos na aprovação global da sua liderança — 36% contra 31%.
A leitura apressada sugere uma ascensão chinesa. A leitura cuidadosa revela algo mais profundo: não se trata apenas de uma subida relativa de Beijing, mas de uma erosão acelerada da legitimidade internacional de Washington. O que está em curso é uma mudança de natureza estrutural.
Os números são inequívocos. Enquanto a China mantém uma trajetória de estabilidade, os Estados Unidos enfrentam uma queda abrupta, acompanhada por níveis recordes de desaprovação. Mais revelador ainda é o fato de esse declínio ocorrer entre aliados históricos, expondo uma crise de confiança no núcleo do sistema ocidental. Já não se trata de divergências pontuais, mas de fadiga estratégica.
Há, contudo, um agravante frequentemente negligenciado: os dados refletem percepções de 2025 e não incorporam eventos críticos de 2026. Entre eles, decisões unilaterais de política externa: o tarifaço global, o enfraquecimento de compromissos multilaterais, o contínuo apoio ao genocídio em Gaza e, sobretudo, a escalada militar no Irã — uma guerra de escolha, assimétrica e de racionalidade questionável.
Se o Iraque representou o início do desgaste da hegemonia americana, o Irã poderá vir a simbolizar o seu esgotamento. Não pela derrota militar convencional, mas pela corrosão da legitimidade. Guerras desta natureza já não produzem ordem — produzem fragmentação, desconfiança e custo reputacional irreversível. São, em última instância, o cemitério de projetos hegemônicos.
Ainda assim, reduzir o avanço da China apenas aos erros dos Estados Unidos seria analiticamente insuficiente. Beijing tem, de forma consistente, cultivado instrumentos de projeção de imagem que reforçam a sua aceitação internacional. A Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative) expandiu a presença chinesa em infraestrutura e conectividade global; o protagonismo na transição energética e em tecnologias verdes projeta uma imagem de modernidade e responsabilidade; e a diplomacia econômica — combinando financiamento, comércio e investimento — oferece respostas concretas a países em busca de desenvolvimento.
Além disso, a postura chinesa de não imposição explícita de modelos políticos e a ênfase em princípios de soberania e não intervenção ressoam particularmente no Sul Global, onde a memória de intervenções externas permanece viva. Beijing não disputa legitimidade por meio de valores universais proclamados, mas pela entrega de resultados tangíveis.
É precisamente neste ponto que emerge o papel do BRICS como estrutura de reorganização da ordem internacional. Longe de ser uma aliança tradicional, o BRICS opera como uma plataforma de coordenação entre economias que buscam ampliar sua autonomia estratégica e reduzir vulnerabilidades sistêmicas. A expansão do grupo e o fortalecimento de mecanismos financeiros próprios sinalizam a construção gradual de alternativas à arquitetura dominada pelo Ocidente.
Para o Brasil, esse movimento representa uma oportunidade histórica. Ao integrar o BRICS e aprofundar sua relação com a China, o país posiciona-se como ator relevante numa ordem em recomposição. Trata-se de uma inflexão estratégica: de participante periférico para agente de articulação.
A relação sino-brasileira, nesse contexto, adquire densidade estrutural. Vai além do comércio de commodities e avança para investimentos, infraestrutura, energia limpa e inovação. A complementaridade entre as duas economias cria condições para uma parceria de longo prazo, capaz de gerar ganhos não apenas econômicos, mas também geopolíticos.
Ao mesmo tempo, a perda de previsibilidade dos Estados Unidos amplia o espaço para uma diplomacia brasileira mais assertiva. O custo do alinhamento automático cresce, enquanto a diversificação de parcerias torna-se imperativa. O Brasil pode, assim, atuar como ponte entre polos, maximizando sua autonomia e relevância.
Se essa dinâmica se consolidar, a questão deixará de ser quem lidera — e passará a ser quem oferece estabilidade num sistema em mutação. Nesse cenário, a chamada “vitória silenciosa” da China revela-se menos como imposição e mais como consequência de um mundo que já não aceita centralidades exclusivas. Esta é, sem dúvida, a grande conclusão que o relatório Gallup revela.
Para o Brasil, a escolha é clara: ou permanece ancorado em uma ordem em declínio, ou participa ativamente da construção da próxima. Porque, em momentos de transição histórica, não são os mais fortes que definem o futuro — mas os que melhor compreendem o seu tempo.

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