
por Marcus Vinicius de Freitas
Publicado em 29/04/2026, às 09h06
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã não representa apenas mais um episódio de violência regional. Ela sinaliza uma transformação mais profunda e estrutural: o esgotamento de uma ordem internacional fundada na capacidade de impor limites pela força e de legitimar essa imposição por meio do direito.
Durante décadas, ainda que de forma imperfeita, operou-se sob a premissa de que o poder poderia conter a escalada e que o direito internacional funcionaria como moldura para o uso da força. Essa interação encontra-se agora em declínio. As normas persistem, mas sua aplicação tornou-se seletiva; o poder continua abundante, mas carece de coordenação. O resultado não é o colapso imediato da ordem, mas sua fragmentação progressiva — um sistema em que a estabilidade é provisória, a escalada é administrada e o equilíbrio deixa de ser garantido.
Nesse contexto, a ofensiva conduzida por Washington e Tel Aviv contra o Irã ultrapassa os limites jurídicos estabelecidos pela Carta das Nações Unidas. Sem autorização do Conselho de Segurança e na ausência de um ataque armado que satisfaça os critérios restritivos da legítima defesa, trata-se de uma ação que contribui para a erosão do próprio arcabouço normativo que sustenta o sistema internacional. Ao expandir o conceito de ameaça iminente, abre-se espaço para a normalização do uso preventivo da força — uma inflexão que redefine não apenas a prática, mas a própria lógica do direito internacional.
É precisamente nesse ambiente que a China se reposiciona. Não como substituta de um poder hegemônico em declínio, nem como aspirante a garantidora militar da ordem, mas como um ator capaz de operar em um sistema onde a imposição já não produz estabilidade. A sua resposta não é de retração, mas de adaptação.
A estratégia que emerge pode ser descrita como neutralidade qualificada. Beijing rejeita a legalidade das ações militares, mas recusa o alinhamento. Mantém canais abertos com todos os atores — Irã, Arábia Saudita, Israel, Turquia e os países do Golfo — preservando simultaneamente acesso e flexibilidade. O que à primeira vista pode parecer ambiguidade revela-se, na prática, uma forma distinta de racionalidade estratégica: maximizar presença sem assumir os custos da imposição.
Essa postura não é abstrata. Aproximadamente 40% das importações chinesas de petróleo provêm do Oriente Médio, e qualquer disrupção no Estreito de Ormuz tem efeitos imediatos sobre preços, inflação e estabilidade interna. Ao mesmo tempo, ativos vinculados à Iniciativa do Cinturão e Rota — estimados em cerca de 12 bilhões de dólares apenas no Irã — encontram-se expostos a riscos diretos. A opção pela não intervenção não decorre de limitação, mas de cálculo.
Ao invés de projetar poder militar, Beijing atua como estabilizadora de presença leve. Sua diplomacia — discreta, contínua e muitas vezes indireta — tem contribuído para a contenção da escalada. A mediação conduzida por enviados especiais, o engajamento de alto nível e iniciativas conjuntas com atores regionais foram reconhecidos, inclusive por Washington, como fatores relevantes na extensão do cessar-fogo de abril de 2026. Trata-se de uma forma de influência que não se afirma pela imposição, mas pela capacidade de operar dentro da instabilidade.
Paralelamente, observa-se uma reconfiguração silenciosa no domínio financeiro. A crescente utilização do renminbi em transações energéticas — com o Irã adotando a moeda chinesa de forma sistemática e a Arábia Saudita expandindo seu uso — não representa uma substituição imediata do dólar, ainda dominante, mas sinaliza a criação de alternativas em um sistema progressivamente instrumentalizado. Mais do que uma transformação monetária, trata-se de uma estratégia de mitigação de vulnerabilidades.
O principal risco para Beijing não é militar, mas estratégico: o perigo de ser simultaneamente pressionada pelo Irã a aprofundar o apoio econômico e pelos Estados Unidos a aderir a regimes de sanções. Até o momento, a distinção entre relação econômica e compromisso de segurança tem sido preservada. Uma escalada prolongada, contudo, pode tornar essa separação mais difícil de sustentar.
A questão central, portanto, deixa de ser a substituição de uma hegemonia por outra. A China não pretende assumir o papel de garantidora da ordem. O que se delineia é algo mais sutil e, talvez, mais duradouro: a capacidade de operar em um sistema onde a ordem já não é imposta, mas continuamente negociada entre centros de poder concorrentes.
Nesse novo ambiente, a estabilidade não resulta de soluções definitivas, mas da gestão permanente de tensões. O poder deixa de ser medido pela capacidade de impor ordem e passa a ser avaliado pela habilidade de navegar a sua ausência.
A pergunta, portanto, não é quem substituirá o xerife. A pergunta é se a ordem pode sobreviver sem ele. A resposta começa a ser esboçada — não em tratados ou instituições —, mas na forma como os atores aprendem a coexistir dentro da instabilidade. E as perspectivas são auspiciosas.

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