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COLUNA

Trump, o construtor da nação chinesa

Trump, o construtor da nação chinesa - Imagem: Reprodução / Instagram / @realdonaldtrump
Trump, o construtor da nação chinesa - Imagem: Reprodução / Instagram / @realdonaldtrump
Marcus Vinícius De Freitas

por Marcus Vinícius De Freitas

Publicado em 25/03/2026, às 08h00


Há momentos na história em que grandes transformações não são conduzidas pelos protagonistas que imaginamos, mas por antagonistas involuntários. Donald Trump, ao longo de sua trajetória política, buscou redefinir o papel dos Estados Unidos no sistema internacional por meio de uma estratégia marcada pelo confronto, pelo protecionismo e por uma desconfiança estrutural em relação à globalização. No entanto, ao fazê-lo, acabou desempenhando um papel paradoxal: o de acelerar, consolidar e, em certa medida, legitimar a ascensão da China como potência central do século XXI.

Não por acaso, em círculos políticos e acadêmicos chineses, utiliza-se uma designação que é, ao mesmo tempo, irônica e reveladora: Trump como o “construtor da nação”. A expressão não deve ser entendida como elogio, mas como diagnóstico estratégico. Ao pressionar sistematicamente a China, ao tentar limitar seu acesso a mercados e tecnologia, e ao transformar a rivalidade sino-americana em eixo estruturante da política internacional, Trump acabou oferecendo a Beijing aquilo que nenhuma liderança doméstica poderia produzir sozinha: um catalisador externo de unidade, propósito e aceleração histórica.

A lógica que orienta a política externa de Trump parte de uma premissa clara: a de que a interdependência é vulnerabilidade. A resposta tem sido uma tentativa frustrada de “desacoplamento” econômico, acompanhada de tarifas, sanções tecnológicas e uma retórica que transformou a China de parceira estratégica em adversária sistêmica. Contudo, ao invés de conter Beijing, essa estratégia produziu o efeito oposto. Forçou a China a acelerar processos que, de outra forma, poderiam ter ocorrido de maneira mais gradual.

A pressão externa funcionou como catalisador interno. A China, confrontada com restrições ao acesso a tecnologia e mercados, intensificou sua aposta em inovação, autossuficiência e reconfiguração das cadeias produtivas. Programas como o Made in China 2025 deixaram de ser apenas instrumentos de política industrial e passaram a assumir uma dimensão estratégica existencial. O que era planejamento tornou-se imperativo. O que era ambição tornou-se necessidade.

Mais do que isso, Trump tem contribuido para algo ainda mais profundo: a construção de uma narrativa nacional chinesa baseada na ideia de resistência e superação. Ao adotar uma postura confrontacional, Washington tem oferecido a Beijing um elemento essencial na formação de qualquer projeto nacional duradouro — um adversário externo claro. Trump ofereceu à China um espelho contra o qual ela pôde se definir com maior nitidez. E o mundo pode vislumbrar as diferenças fundamentais existentes entre os dois.

É, contudo, no teatro mais recente da guerra assimétrica e por escolha com o Irã que se revela, de maneira ainda mais aguda, a dimensão estratégica desse desvio. Ao alinhar-se de maneira quase automática aos desejos do primeiro-ministro de Israel, Donald Trump incorreu em um erro de cálculo de grandes proporções. Uma agenda que, em larga medida, respondia a imperativos políticos domésticos israelenses foi progressivamente transmutada em crise internacional, com repercussões diretas sobre os mercados energéticos, as cadeias logísticas e a estabilidade global. O que poderia ter permanecido como tensão regional tornou-se um vetor de desorganização sistêmica. Trump não apenas ampliou o alcance do conflito, como também expôs os Estados Unidos a um duplo desgaste: econômico e reputacional. O aumento da volatilidade nos preços do petróleo, a insegurança nas rotas estratégicas e a percepção de imprevisibilidade na condução da política externa americana têm contribuído para um cenário de crescente desconfiança. Mais do que liderança, projetou-se a imagem de impulsividade; mais do que estratégia, a de alinhamento automático.

O resultado é particularmente significativo. Ao invés de reforçar sua posição como potência organizadora da ordem internacional, os Estados Unidos passaram a ser percebidos, em diversos contextos, como fator de instabilidade — um ator cuja atuação pode precipitar crises em vez de mitigá-las. Em termos simbólicos, aproxima-se perigosamente da condição de pária estratégico, não por ausência de poder, mas pela erosão da confiança que sustenta sua legitimidade.

Ao mesmo tempo, a política americana produziu um efeito colateral de grande relevância: a abertura de espaço para que a China se apresente como alternativa de previsibilidade. Há, portanto, uma ironia histórica incontornável. Ao tentar conter a ascensão chinesa, Trump contribuiu para acelerar o processo de construção da China como nação plenamente consciente de seu papel global. Não apenas como economia, mas como civilização política, tecnológica e estratégica. A China de hoje é, em parte, resultado das pressões que buscavam limitá-la. Isso não significa que a trajetória chinesa esteja isenta de desafios. Pelo contrário. Questões demográficas, tensões regionais e a necessidade de acelerar o dinamismo econômico permanecem como dilemas centrais.

Trump, ao agir como arquiteto de uma política de contenção, acabou por se tornar, paradoxalmente, um dos construtores da nação chinesa contemporânea. Não por intenção, mas como consequência. Trump não criou a ascensão da China, mas tem ajudado a dar-lhe forma, ritmo e, sobretudo, propósito.


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