
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 26/04/2023, às 11h39
Atravessamos um dos momentos mais interessantes da história, num processo de transição hegemônica entre grandes potências, com o declínio dos Estados Unidos – a candidatura de Joe Biden à reeleição pouco ajuda na mudança desta trajetória – e a ascensão da China – com sua política de Rejuvenescimento. A crise do Covid-19 e a Guerra na Ucrânia constituem, em conjunto, a disrupção histórica que marca o início do Século Asiático.
Neste processo, observarmos, de modo claro, que os países asiáticos, liderados pela China, souberam enfrentar positivamente a pandemia e atravessam, com relativa tranquilidade, a Guerra na Ucrânia. Apesar das inúmeras teorias conspiratórias, com o objetivo de criar um bode expiatório para esconder a ineficiência ou simplesmente difamar a China, ou ainda provocar um eventual conflito na questão da província de Taiwan, não há dúvida de que a transição do centro econômico e do poder global do Atlântico para o Pacífico se tornou irreversível.
Em que pese o rosário de reclamações e queixas de Washington quanto a Beijing, notamos a incapacidade da Casa Branca em reconhecer que a China está sendo culpada por justamente ter adquirido um nível de infraestrutura e competitividade que, de algum modo, a colocaram numa posição de superioridade competitiva. A iniciativa de Lula da Silva de aproximar-se da China e buscar incrementar o relacionamento bilateral é importante, afinal o governo anterior não pecou em absoluto pelo brilhantismo em sua Política Externa. No entanto, a grande dúvida é se, realmente, a administração atual compreende os ventos da mudança que vem ocorrendo no mundo.
A impressão é negativa e isso preocupa. Afinal, Lula da Silva, ao mesmo tempo que realiza movimentações positivas no sentido de reposicionar o Brasil globalmente, o faz de maneira atabalhoada, sem uma estratégia clara do que pretende alcançar. A indicação de Dilma Rousseff, por exemplo, à presidência do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) – a presidente que não gostava de Política Externa e que sofreu impeachment e que, não fosse uma geringonça criada pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal que presidia o julgamento, não poderia, nas palavras do juiz, nem ser uma merendeira numa escola – indicam um certo descaso com uma instituição tão importante quanto o NBD na formulação da nova governança global.
Há mais de dez anos que a China se tornou o maior parceiro comercial do Brasil – aliás, não só do País, mas de cerca de 140 países e territórios no mundo. Tornou-se, também, um dos maiores investidores. É hora de o Brasil parar de tratar a Chinacomo mero comprador de produtos e commodities e sim como sócio efetivo nas relações internacionais e na construção da nova ordem mundial. O BRICS, neste sentido, oferece uma oportunidade única ao País, algo que o G7 jamais oferecerá ou pretenda incluir.
Ressalte-se, por fim, que contrariamente àquilo que o governo anterior apregoava, a China não é totalmente dependente do Brasil em matéria agrícola. O Presidente da China, Xi Jinping, recebe constantemente chefes de estado e governo, oferecendo produtos agrícolas, além dos Estados Unidos, que são um de nossos maiores concorrentes.
O Brasil também tem repetido a mesma estratégia equivocada relativa à sua entrada como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, sabendo, antecipadamente, que a proposta do G-4 (Alemanha, Brasil, Índia e Japão) jamais conseguirá o apoio necessário para ser implementada em razão da dinâmica do funcionamento do próprio Conselho. Trata-se de uma perda de tempo e um equívoco, particularmente num momento em que o mundo precisa de novas ideias e ações efetivas para a transição na governança global e não num retorno a ideias que já se provaram infrutíferas no passado e que estão fadadas ao fracasso.
Na questão da Guerra na Ucrânia, Lula da Silva tem sido forçado a compreender que, em política externa, nem tudo que se pensa pode ser, de fato, revelado, principalmente quando se pretende posicionar o Brasil como possível mediador do conflito. Ele tem tropeçado na questão ucraniana, esquecendo-se de que, diferentemente da política local, na internacional o que se articula é levado em consideração, não em razão do indivíduo, mas do peso do Brasil que é, sem dúvida, um país importante no cenário global, mas que por falta de envergadura, preparo e intrepidez, sempre se apequena diplomaticamente diante de assuntos globais que requerem refino e compreensão. É necessário também recordar ao Presidente Lula da Silva que, por mais que lhe digam ser possível, é-lhe reduzidíssima a possibilidade de receber um Prêmio Nobel da Paz.
A ordem internacional será muito diferente nos próximos anos. O Brasil deveria tratar a China, doravante, como parceiro estratégico de maior relevância, modificar a natureza do relacionamento e elevar o patamar do relacionamento, inclusive acelerando um possível acordo comercial, buscando livrar-se das amarras do Mercosul, que precisa ser revertido a uma área de livre comércio e não um mercado comum. O Brasildeveria aderir à Nova Rota da Seda e buscar os investimentos imprescindíveis à infraestrutura que lhe garantam competitividade global.
Já erramos muito e com elevado custo. É importante entender a mudança dos ventos para elevarmos o País a um novo patamar de relevância global. Política Externa é assunto sério e planejamento e estratégia são elementos essenciais para se alcançar objetivos de longo prazo.
Enfim, ao celebrar seus três primeiros meses à frente da presidência da república, Lula da Silva teve muito pouco a comemorar em matéria de Política Externa. Ainda é possível mudar o rumo. Logrará? Eis a questão!

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