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O Chá da Tarde do G7

O Chá da Tarde do G7 - Imagem: Reprodução | Abdobe Photoshop IA
O Chá da Tarde do G7 - Imagem: Reprodução | Abdobe Photoshop IA
Marcus Vinícius De Freitas

por Marcus Vinícius De Freitas

Publicado em 26/06/2024, às 06h00


A última Cúpula do G7 poderia assemelhar-se a um chá da tarde de despedida de velhos companheiros prestes a aposentar-se involuntariamente. Daqueles que participaram, quatro deles, provavelmente, não retornarão à Cúpula de 2025, no Canadá.

Num mundo desestabilizado por duas guerras de enorme impacto global – uma, na Ucrânia, que afeta a Europa, que vem empobrecendo drasticamente, e outra, em Gaza, que deteriora a própria razão da existência das Nações Unidas – além do incremento da onda protecionista, cujo objetivo é conter a China e os enormes benefícios da globalização, a Cúpula não correspondeu às necessidades e crises globais.

A retomada do crescimento é essencial. No entanto, o Comunicado Final dos Líderes do G7, de 36 páginas, dedicou pouco menos de uma página para tratar do comércio global. O G7, paulatinamente, vem-se transformando no grande inimigo da globalização. Termos como “de-risking”, “friendly-shoring” e “near shoring” nada mais são do que tentativas para impedir a retomada do crescimento global, particularmente voltadas contra a China que é, sem dúvida, a principal mola propulsora do comércio global.

A estratégia norte-americana de politizar questões comerciais – inclusive a capacidade de produção e outras questões econômicas – tem provocado enormes atritos em todo o globo. Atrapalhar o importante papel global da China na manutenção das cadeias globais de produção e abastecimento é totalmente ineficiente e, de fato, contrária aos princípios fundamentais da economia de mercado.

A obsessão insana na manutenção de um status de guerra fria pelos Estados Unidos contra a China não leva em consideração o interesse global pelo desenvolvimento e crescimento econômico. Até o mesmo o argumento mais recente de excesso de capacidade produtiva chinesa vem sendo utilizada para fomentar barreiras protecionistas na Europa. Este tipo de ação ignora os enormes desafios de um mundo que ainda não se recuperou totalmente da pandemia da Covid-19 e das guerras na Ucrânia e Gaza – esta última podendo expandir-se regionalmente pela ação desastrada de Netanyahu para perpetuar-se no poder e querer incluir o Líbano no conflito.

A agenda do G7 foi ditada pelos Estados Unidos. Com a liberação de um empréstimo de US$ 50 bilhões à Ucrânia, utilizando juros dos ativos russos congelados como colaterais, a iniciativa – por mais que digam o contrário – é um cravo fincado na competitividade da Europa como mercado financeiro global, uma vez que gera sérias dúvidas quanto a manter seus ativos no continente.Sucumbir a esta demanda norte-americana terá um alto custo e fuga de capitais da Europa. Afinal, países ricos furtarem os ativos de estados soberanos para fazerem bondade com o chapéu alheio não é uma conduta pristina. Kyiv deveria desconfiar da fiabilidade de seus parceiros, que prometem recursos próprios e usam os da Rússia, que jamais é convidada para tentativas de negociação de paz efetiva. Independentemente do resultado da guerra, a Ucrânia não deverá afiliar-se à NATO. E aí ressurge a pergunta fundamental: esta guerra não ocorreu porque a Ucrânia deveria afiliar-se à NATO? Além disso, fica cada vez mais confirmado que existe somente a soberania dos países mais fortes no sistema internacional, que podem impor sua vontade.

A Cúpula, praticamente um velório, aparentava ser mais uma reunião do Conselho de Defesa Nacional dos Estados Unidos do que uma reunião de líderes globais. Com o objetivo de assegurar a reeleição do combalido Joe Biden, o conflito da Ucrânia – essencial na política doméstica norte-americana – os líderes optaram por ampliar a pressão e isolamento da Rússia, afastando a possibilidade de paz no curto prazo. E, ainda nesta pauta pró-Biden, os membros do G7 alinharam-se para confrontar, ainda mais, a China, incluindo as impróprias medidas de protecionismo impostas contra os veículos elétricos, na grande maioria produzidos por empresas europeias localizadas no gigante asiático.

A eleição de Joe Biden se torna cada vez mais difícil. Por mais que os meios de comunicação tentem esconder, os sinais claros de senilidade do atual ocupante da Casa Branca são evidentes. Donald Trump tampouco é um jovem maratonista na disputa presidencial. Além de já idoso, com algumas falhas inerentes à saúde, Trump ainda enfrenta as consequências de uma caça às bruxas empreendida pelo Partido Democrata, o que não lhe facilita a vida em absoluto e várias dívidas com a Justiça, muitas delas atreladas ao fato de ser um mau perdedor.

Esta eleição norte-americana revela um país que tem enfrentado um enorme problema de renovação política, particularmente no Partido Democrata, depois da presidência de Bill Clinton. Os Estados Unidos têm, como resultado desta situação, perdido o título de campeão mundial da democracia, que lhe é erroneamente atribuído, afinal, houve o caso de inúmeras deposições de regimes democráticos fomentados e implementados por Washington ao longo da história.

O G7 se tem tornado cada vez mais irrelevante ao deixar de coordenar medidas efetivas para retomada do crescimento global para fomentar a continuidade de guerras na Ucrânia e Gaza. O BRICS, por outro lado tem-se tornado cada vez mais relevantes no processo da construção de uma nova ordem global que seja mais compreensiva e igualitária. Os dias do G7 parecem estar contados.

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