
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 18/06/2025, às 06h01
O mês de maio de 2025 será lembrado, na história das relações internacionais, como o marco simbólico de uma inflexão: o momento em que a estratégia de coerção econômica norte-americana encontrou um limite — e colheu, em troca, constrangimento e isolamento. Apresentada com pompa como “dia da libertação econômica”, a medida anunciada pelos Estados Unidos de tentar cortar, unilateralmente, o acesso da China às cadeias globais de tecnologia não apenas fracassou em seus objetivos estratégicos, como expôs a fragilidade de uma potência que recorre à intimidação quando perde a capacidade de liderar pelo exemplo.
Ao tentar forçar aliados e parceiros a aderirem a sanções unilaterais contra Pequim — sob ameaça de punições secundárias e retaliações comerciais — Washington incorreu numa prática que se aproxima perigosamente da extorsão institucionalizada. Tal comportamento, que beira o bullying geoeconômico, escancarou ao mundo um dado perturbador: os Estados Unidos, em vez de se adaptarem à nova realidade multipolar, optaram por resistir a ela com práticas anacrônicas e uma arrogância imperial que cada vez menos intimida.
Felizmente, para a saúde do sistema internacional, a China desempenhou um papel de firmeza e racionalidade. Em vez de responder com hostilidade, reiterou o princípio da não-interferência, promoveu o diálogo multilateral e reforçou laços com o Sul Global — não com ameaças, mas com investimentos, respeito à soberania e parcerias de longo prazo. A reação global, sobretudo dos países em desenvolvimento, foi de alívio: já não estamos condenados à submissão silenciosa. Há alternativas.
Se quisermos identificar marcos históricos que simbolizam o declínio do poder hegemônico norte-americano, quatro episódios se destacam. O primeiro: a crise financeira de 2007–2008, gestada nos centros do capitalismo avançado, mas cujas consequências devastaram o mundo. O segundo: a resposta errática à pandemia da Covid-19, que evidenciou a falência das estruturas públicas e a fragmentação interna dos EUA. O terceiro: a guerra na Ucrânia, onde o apoio incondicional a Kiev revelou mais idealismo do que estratégia, culminando num impasse militar que desgastou o prestígio ocidental. E o quarto: este recente fracasso da coerção econômica contra a China, que não só fortaleceu a posição de Pequim como desmoralizou o unilateralismo norte-americano.
A tudo isso soma-se, de forma reveladora, o apoio incondicional dos Estados Unidos à ação preventiva de Israel, iniciada em 13 de junho — uma guerra lançada sob o pretexto de neutralizar um programa nuclear que, segundo diversas fontes oficiais e agências reconhecidas internacionalmente, nem sequer estava em fase avançada de desenvolvimento de armamento. Essa postura, que exige de Teerã a rendição para só então negociar, revela a mesma lógica coercitiva que marcou a conduta do presidente norte-americano na arena econômica: impor pressão máxima na expectativa de uma capitulação incondicional. No terreno da guerra comercial com a China, porém, Washington encontrou um interlocutor de igual peso e resiliência, capaz de resistir à chantagem e defender a construção de um sistema internacional mais equilibrado. No caso iraniano, o mesmo grau de paridade não se verificou — expondo a assimetria de poder que, até hoje, sustenta aventuras unilaterais disfarçadas de legítima defesa. Os discursos se repetem, as ações são as mesmas, e os resultados sempre desastrosos, que perduram por gerações.
Ao insistir em ser o guardião infiel da ordem econômica e política global — aplicando punições seletivas, manipulando instituições financeiras e impondo sua vontade pela força — os Estados Unidos acabam por fomentar a resistência que hoje os desafia. Em pleno século XXI, o mundo exige respeito mútuo, soberania compartilhada e cooperação genuína. A era dos bullies globais está com os dias contados — e a história, mais uma vez, será escrita não pelos que intimidam e coagêm, mas pelos que constroem pontes com sabedoria, dignidade e visão de futuro.

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