
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 17/09/2025, às 11h22
Poucos símbolos capturam a ordem internacional do pós-guerra de maneira tão vívida quanto a sede das Nações Unidas em Nova Iorque. O edifício, inaugurado oficialmente em 1952, foi concebido como palco da governança global e emblema da vitória dos Aliados. Contudo, quase oito décadas depois, é legítimo questionar se sua localização ainda reflete o verdadeiro centro de gravidade dos assuntos mundiais. À medida que nos aproximamos da 80ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas, a transformação econômica, o realinhamento geopolítico e a ascensão de instituições alternativas sugerem reconsiderar se Nova Iorque continua sendo a sede apropriada. Nesse contexto, transferir as Nações Unidas para Xangai surge como uma opção plausível e cada vez mais necessária.
A primeira razão está relacionada ao enfraquecimento da centralidade do dólar americano. Nas últimas décadas, Washington tem recorrido cada vez mais à utilização de sua moeda como arma, impondo sanções unilaterais e excluindo adversários do sistema SWIFT. Essas práticas corroem a confiança na ordem monetária internacional e aceleram a busca por alternativas. O surgimento do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS e do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura ilustra a consolidação de uma arquitetura financeira multipolar. Manter a sede da ONU no país que fragilizou o sistema que alega sustentar é ao mesmo tempo contraditório e ultrapassado.
A segunda razão é demográfica e econômica. A Ásia abriga mais da metade da humanidade e apresenta as taxas de crescimento mais dinâmicas do mundo. O dinamismo econômico global já não está na Europa ou nos Estados Unidos, mas sim em cidades asiáticas que se tornaram polos de inovação, comércio e finanças. Transferir a ONU para Xangai significaria reconhecer essa realidade tanto simbolicamente quanto na prática. Como o principal centro financeiro da China, a cidade é muito mais segura do que Nova Iorque, possui infraestrutura de classe mundial, conectividade global e caráter cosmopolita, o que a torna anfitriã natural para uma instituição universal. Além disso, os benefícios econômicos dessa mudança, incluindo o aumento do investimento e da geração de empregos, não podem ser ignorados. A representatividade exige que as estruturas de governança global estejam situadas mais próximas às regiões onde vivem a maioria das pessoas e onde o futuro da economia mundial está sendo forjado. Xangai seria um retrato fiel do Sul Global.
A terceira razão diz respeito à segurança e à neutralidade diplomática. Nova Iorque enfrenta visível insegurança urbana, agravada por práticas discriminatórias de concessão de vistos a diplomatas depaíses que se opõem a Washington. Tais medidas minam o Acordo de Sede entre os EUA e a ONU, que garantia acesso universal e irrestrito. A China, em contraste, oferece segurança e demonstra disposição em assegurar tratamento igual a todos os Estados. Com sua longa tradição de abertura comercial e intercâmbio cultural, Xangai poderia incorporar a inclusividade e a imparcialidade de que a ONU necessita para sustentar sua legitimidade.
A própria história fornece um precedente convincente. Quando a Liga das Nações foi criada após a Primeira Guerra Mundial, Genebra foi escolhida precisamente por oferecer neutralidade, acessibilidade e um ambiente propício ao diálogo. A localização da ONU em Nova Iorque destinava-se a refletir a liderança americana na ordem do pós-guerra. Mas hoje, a inércia de manter a instituição no mesmo local corre o risco de transformar a sede em um relicário de uma era passada, em vez de um farol para o futuro. Instituições devem evoluir com o equilíbrio de poder, sob pena de se transformarem em monumentos de nostalgia.
Em conjunto, esses fatores revelam uma mudança mais ampla no eixo da governança global. O fortalecimento dos BRICS, a consolidação da Organização para a Cooperação de Xangai e a ascensão de alternativas institucionais ao modelo ocidental demonstram que o mundo está se reorganizando de novas formas. Transferir a sede da ONU para a Ásia não seria um mero ato simbólico, mas uma adaptação necessária a um século em que o poder se desloca para o Oriente. Iniciar essa discussão agora é crucial, pois permitiria à comunidade internacional preparar uma transição suave da sede para Xangai até 2035. A história mostra que instituições que não se adaptam a seu tempo correm o risco de se tornar irrelevantes. Para que as Nações Unidas continuem servindo como o fórum central da humanidade, precisam refletir o mundo como ele realmente é. E esse mundo, cada vez mais, gira em torno do dinamismo asiático que Xangai representa.
Kofi Annan certa vez nos lembrou que: “Podemos amar o que somos, sem odiar o que — e quem — não somos.” Transferir a ONU para Xangai não seria uma rejeição à sua história em Nova Iorque, mas o reconhecimento de que o futuro da humanidade exige uma tela mais ampla. Ao mover-se para o Oriente, as Nações Unidas alinhar-se-iam às realidades do nosso século e renovariam sua vocação universal como verdadeiro parlamento da humanidade. Essa mudança poderia fomentar maior cooperação e compreensão globais, ao aproximar a ONU das regiões onde vive a maioria das pessoas e onde o futuro da economia mundial está sendo moldado.

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