
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 08/04/2026, às 09h44
Ser professor de Relações Internacionais é, ao mesmo tempo, um privilégio e uma condenação silenciosa. Privilégio, porque nos obriga a estar intelectualmente vivos, atentos, permanentemente atualizados diante das transformações do mundo. Condenação, porque nos expõe, sem filtros, ao pior da condição humana. Acompanhar o desenvolvimento da humanidade é, em muitos momentos, motivo de fascínio. Mas há outros em que se torna um exercício de profunda angústia moral. Gaza é hoje um desses momentos.
É preciso dizer com todas as letras — ainda que isso incomode: Gaza se transformou, na prática, em um campo de concentração a céu aberto. Um espaço onde uma população inteira se encontra confinada, privada de condições mínimas de sobrevivência digna, submetida a uma deterioração contínua e sistemática de sua existência. Não se trata de retórica. Trata-se de realidade.
Isso não significa ignorar o contexto mais amplo do conflito. O ataque de 7 de outubro de 2023, a tomada de reféns e os foguetes lançados contra civis israelenses são fatos graves que não podem ser omitidos de qualquer análise séria. Não há aqui espaço para relativizações convenientes. Trata-se de uma guerra em que violências são cometidas de ambos os lados. Reconhecer esse contexto não justifica, no entanto, o enorme sofrimento em Gaza.
Recentemente, uma reportagem amplamente divulgada revelou um dado que deveria chocar qualquer consciência minimamente desperta: o aumento do número de crianças palestinas mordidas por ratos, consequência direta da infestação desses animais em meio à destruição, ao colapso sanitário e à ausência de qualquer estrutura básica de saúde pública. Este não é um detalhe periférico — é um símbolo brutal do nível de degradação a que se chegou.
Quando crianças passam a disputar espaço com ratos em um ambiente de ruína, não estamos mais diante de um conflito. Estamos diante de um colapso civilizacional. E, ainda assim, o mundo hesita.
Talvez o mais perturbador não seja apenas o que acontece, mas o fato de que já se observa a expansão dessa lógica. Discursos que prometem a destruição total de países inteiros, baseados em ameaças muitas vezes inexistentes ou não comprovadas, voltam a ganhar espaço. Guerras de escolha — não de necessidade — passam a ser normalizadas como instrumentos legítimos de ação internacional. Ameaças de crimes de guerra são normalizadas. Isso é inaceitável.
Podemos — e devemos — ter divergências profundas em relação a regimes políticos, práticas internas e concepções de direitos humanos. Mas nada, absolutamente nada, autoriza a aceitação da desumanização como método.
Particularmente grave é o papel desempenhado por sociedades que se autoproclamam mais desenvolvidas, mais avançadas, mais comprometidas com valores universais. É precisamente delas que se esperaria contenção, prudência e respeito a limites éticos inegociáveis. No entanto, o que se observa, em muitos casos, é o contrário: a legitimação do inaceitável sob o pretexto de riscos futuros.
Há também um elemento que agrava ainda mais essa tragédia: a instrumentalização da religião. Ver discursos religiosos sendo mobilizados — e, em alguns casos, celebrados — para justificar destruição e sofrimento humano é uma das maiores perversões do nosso tempo.
Talvez resida aqui uma verdade simples e incômoda: Deus não escuta as orações daqueles que desejam destruir os seus filhos. E como bem declarou o Papa Leão XIV: Deus rejeita as orações de líderes que promovem guerras e conflitos, afirmando que estes têm "as mãos cheias de sangue". Ainda assim, no entanto, a tragédia persiste.
O que nos obriga a enfrentar uma hipótese ainda mais desconfortável: e se há interesses que lucram com o caos? E se a catástrofe, longe de ser apenas um acidente, tornou-se parte de uma engrenagem que movimenta poder, recursos e influência?
Essas são perguntas que poucos querem fazer — e menos ainda responder. Mas ignorá-las é parte do problema.
O maior risco que enfrentamos hoje não é apenas a continuidade dessas tragédias. É a sua normalização. É o momento em que deixamos de nos indignar. É quando o inaceitável passa a ser tratado como inevitável. E isso, sim, seria a derrota definitiva.
Indignar-se, neste contexto, não é radicalismo. É um dever. Porque há momentos na história em que o silêncio deixa de ser neutralidade — e passa a ser cumplicidade. E este é, sem dúvida, um desses momentos.
Como ecoa, ainda hoje, o grito de Castro Alves, em Vozes d’Africa:
“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?”

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