
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 27/08/2025, às 11h00
A realização da Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), em Tianjin, entre 31 de agosto e 1º de setembro de 2025, representa não apenas um marco diplomático, mas um sinal eloquente da transformação estrutural em curso na governança global. O encontro reunirá líderes de mais de vinte países e representantes de dez organizações internacionais, consolidando a SCO como um dos fóruns mais abrangentes e promissores da atualidade.
Desde a sua criação, há vinte e quatro anos, a SCO evoluiu de um mecanismo voltado à segurança regional para um espaço multifacetado de cooperação, abrangendo economia, comércio, cultura e governança global. Hoje, com dez membros plenos, dois observadores e quatorze parceiros de diálogo espalhados pela Ásia, Europa e África, o bloco responde por cerca de um quarto do PIB mundial e ostenta o título de organização regional com maior extensão geográfica e populacional. Não se trata mais de um mecanismo periférico: a SCO tornou-se parte central da arquitetura multipolar que substitui gradativamente a hegemonia unipolar do pós-Guerra Fria.
A China, na condição de anfitriã da cúpula e presidente rotativa da organização, assumiu o compromisso de impulsionar a cooperação em direção ao “Ano do Desenvolvimento Sustentável da SCO”. Nos últimos meses, Pequim promoveu mais de uma centena de reuniões ministeriais e eventos de alto nível, que vão desde encontros de bancos centrais até fóruns culturais, artísticos e acadêmicos. O objetivo é claro: projetar a “Espírito de Shanghai”, baseado na confiança mútua, na igualdade, no respeito à diversidade civilizacional e no desenvolvimento compartilhado, como alternativa concreta a um modelo de governança global marcado pelo confronto e pela exclusão.
O vetor econômico confirma a solidez dessa aposta. De janeiro a julho de 2025, o comércio entre a China e os demais membros da SCO atingiu aproximadamente 296 bilhões de dólares, com crescimento de 3% em relação ao ano anterior. Somente em julho, o intercâmbio avançou 8,5%, registrando o maior valor mensal da história. O setor agrícola se destaca: exportações chinesas de maquinário agrícola e formulações de pesticidas cresceram quase 50% no período, enquanto as importações de produtos agrícolas dos parceiros aumentaram 6,2%. Em 2024, o volume total do comércio sino-SCO foi 36 vezes superior ao de 2001, ano da fundação da organização. Não se trata, portanto, de um experimento incipiente, mas de um mecanismo sólido, capaz de alterar a geografia econômica do continente euroasiático.
É nesse ponto que a América Latina deve observar com atenção. A SCO nasceu no espaço eurasiático, mas sua lógica e seus resultados oferecem lições cruciais para além da Ásia. O multilateralismo prático, o foco no desenvolvimento conjunto e a busca pela complementaridade econômica são valores que ressoam profundamente com as necessidades latino- americanas. A região, historicamente relegada à condição de “quintal” estratégico das grandes potências ocidentais, precisa hoje diversificar seus vínculos e se inserir nas cadeias de valor globais sob bases mais equilibradas.
Não por acaso, a cooperação China-América Latina tem despertado críticas e tentativas de obstrução por parte dos Estados Unidos. Ao acusar Pequim de “saquear” recursos hemisféricos, autoridades norte-americanas não apenas reproduzem uma retórica de Guerra Fria, como revelam a incapacidade de aceitar que os países latino-americanos possam escolher livremente seus parceiros de desenvolvimento. A resposta chinesa é direta: a cooperação é pautada por respeito, benefício mútuo e soberania. Como afirmou recentemente um porta-voz de Pequim, a América Latina não é o “quintal de ninguém” e suas nações têm todo o direito de decidir seus rumos.
A convergência entre a SCO e a América Latina, embora ainda incipiente, carrega imenso potencial. De um lado, a Ásia Central e os demais membros da SCO oferecem à China uma plataforma de integração continental robusta. De outro, a América Latina se projeta como fonte estratégica de alimentos, energia e biodiversidade, além de um mercado consumidor de peso. A soma dessas dimensões pode configurar uma aliança inter-regional entre dois polos do Sul Global, com impacto direto na construção de uma ordem mundial mais equilibrada e inclusiva.
O desafio para a América Latina consiste em não assistir passivamente a esse processo, mas em buscar mecanismos de aproximação institucional. A participação em diálogos ampliados da SCO — o chamado “SCO Plus” — ou a criação de canais permanentes de cooperação inter-regional podem representar passos concretos nesse sentido. Mais que ampliar exportações, trata-se de inserir-se em redes de infraestrutura, ciência, tecnologia e segurança energética que estão a redesenhar os fluxos de poder global.
A Cúpula de Tianjin, presidida pelo presidente Xi Jinping, promete inaugurar uma nova etapa de cooperação, marcada pela adoção de uma estratégia decenal e pela emissão de declarações conjuntas sobre segurança, economia e cultura. Para a América Latina, observar este movimento não deve significar mera curiosidade, mas sim oportunidade de aprendizagem e engajamento. Se o século XXI caminha para a multipolaridade, não há lugar reservado para espectadores: somente atores proativos colherão os frutos da nova ordem em formação.

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