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Brasil no Século XXI: Reconstruir para Crescer

Catedral da Sé, no centro de São Paulo - Imagem: Reprodução / Agência Brasil / Marcelo Camargo
Catedral da Sé, no centro de São Paulo - Imagem: Reprodução / Agência Brasil / Marcelo Camargo
Marcus Vinícius De Freitas

por Marcus Vinícius De Freitas

Publicado em 11/09/2025, às 09h09


Nas últimas décadas, intensificou-se no Brasil a discussão sobre os efeitos das novas tecnologias de inteligência artificial no mercado de trabalho. Trata-se de preocupação legítima: em todas as revoluções tecnológicas, houve deslocamento ocupacional, reconfiguração de setores inteiros e desaparecimento de profissões tradicionais. Contudo, no caso brasileiro, essa apreensão precisa ser relativizada. Antes de temer o impacto da inteligência artificial, o país deveria voltar-se para um problema mais urgente: a necessidade de sua reconstrução estrutural.

O Brasil convive com deficiências gritantes. A qualidade das ruas, da habitação, do saneamento, da infraestrutura básica, de portos e aeroportos é insatisfatória. O fenômeno urbano brasileiro aproxima-se do caos. São Paulo, maior metrópole da América Latina, permanece distante de ser uma verdadeira cidade global: não há placas bilíngues, a iluminação é precária, a sujeira nas ruas cresce, edifícios abandonados proliferam e pichações abundam. Apesar de sua riqueza natural, o país não consegue traduzir o potencial tropical em urbanismo atrativo, com rios limpos, parques acessíveis e áreas verdes bem cuidadas. A capital paulista, em vez de ser vitrine, reflete um cenário de abandono.

O problema é ampliado pela ineficácia crônica da gestão pública. Enquanto nações avançadas planejam décadas à frente, o Brasil insiste em temas inócuos e ignora o essencial. Discutem-se assuntos irrelevantes, enquanto o básico permanece negligenciado: ruas esburacadas, escolas sem ensino em tempo integral, ausência de políticas urbanas integradas e falta de visão estratégica para mobilidade, segurança ou distribuição de renda. A consequência é um país que apenas “apaga incêndios”, sem avançar no enfrentamento das causas estruturais de sua estagnação.

É preciso reconhecer duas verdades. Primeiro: o Brasil precisa ser reconstruído, e – em muitos aspectos – demolido e refeito com planejamento sério e de longo prazo. Segundo: nesse processo, não faltarão empregos. Ao contrário da visão de que a inteligência artificial destruirá postos de trabalho, o Brasil é um canteiro de obras inacabadas. As demandas por saneamento, habitação, infraestrutura logística e recuperação ambiental garantem que o país necessite de milhões de trabalhadores, se houver vontade política e competência técnica. Falar em reduzir jornada de trabalho, em vez de elevar produtividade, é resignar-se a perpetuar o atraso.

No entanto, o entrave maior está no próprio Estado brasileiro, que dilapida o bem mais precioso da população: o tempo. Burocracias infindáveis, regulamentações confusas e discussões vazias corroem oportunidades de crescimento. O caso pessoal que carrego é revelador. Uma empresa que conheço possui crédito tributário a ser devolvido pelo governo do Estado de São Paulo há mais de 23 anos. Mais de duas décadas! Durante esse período, sucessivos governos – não importa o matiz ideológico – mantiveram a mesma prática: adiar, protelar, “corrigir monetariamente”, mas sem jamais honrar a dívida com quem de direito. As decisões judiciais jamais são cumpridas e o custo real é incomensurável: investimentos que poderiam ter sido feitos, inovações que poderiam ter sido aplicadas, empregos que poderiam ter sido gerados — tudo perdido em razão de um Estado que se comporta como caloteiro institucionalizado. Esse episódio não é exceção: é síntese do absurdo que são as administrações brasileiras, incapazes de compreender que ao negar o devido, asfixiam a capacidade empreendedora e reduzem as perspectivas de desenvolvimento.

E o que também não se pode ignorar é o papel das agências regulatórias brasileiras na perpetuação desse círculo vicioso. Muitas vezes, suas ações não apenas acrescentam camadas de burocracia desnecessária, como também prejudicam estruturalmente a competitividade do país. Em vez de atuarem em favor do interesse público, respondem a pressões privadas, criando obstáculos distoantes da realidade nacional. Surpreendeu-me o episódio recente da regulamentação do ingrediente farmacêutico tirzepatida: ao atender a uma demanda específica da indústria farmacêutica, milhares de pacientes em tratamento de obesidade e diabetes foram abruptamente deixados sem acesso ao medicamento. Trata-se de um retrato claro de como decisões administrativas, quando guiadas por interesses particulares, produzem consequências desastrosas para a sociedade e comprometem o potencial de inovação e crescimento econômico.

Este é, portanto, o grande desafio do Brasil no século XXI: não apenas crescer, mas reconstruir-se. Reconstruir a infraestrutura, as cidades, a administração pública e, sobretudo, a confiança de sua população. A inteligência artificial pode ser ameaça ou oportunidade, mas no caso 2 brasileiro ela é apenas parte de uma agenda mais ampla. O essencial é retirar o país da mediocridade estrutural que o aprisiona, devolvendo-lhe a chance de se tornar, enfim, um verdadeiro protagonista global.


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