
por Marcus Vinícius de Freitas
Publicado em 22/04/2026, às 09h21
Não tive filhos e, hoje, não vivo no Brasil. Ainda assim, poucas coisas ocupam tanto o meu pensamento quanto o futuro do país onde nasci, cresci e me formei como indivíduo. É uma ligação que transcende a geografia: o Brasil permanece, para mim, não apenas como memória, mas como projeto inacabado.
É por essa razão que lanço aqui uma inquietação que é, ao mesmo tempo, pessoal e coletiva: que Brasil teremos daqui a vinte anos? Que país estamos, de fato, a construir — ou a negligenciar — para as próximas gerações?
Há uma máxima atribuída a Confúcio que ilumina essa reflexão: o melhor momento para plantar uma árvore foi há vinte anos; o segundo melhor momento é agora. O Brasil de 2046 será, inevitavelmente, o resultado das decisões que tomarmos hoje — ou das decisões que insistirmos em adiar.
Desde a sua origem, o país foi marcado menos por um projeto deliberado de construção nacional e mais por uma lógica de ocupação e exploração, algo que já inquietava Dom João VI ao deixar o território sob responsabilidade de Dom Pedro I. Herdamos essa ambiguidade entre potencial e improvisação. Mas herança não é destino — é advertência.
Se há um princípio capaz de redefinir o Brasil, esse princípio é o mérito. Um país que abdica do mérito abdica da excelência; e um país que abdica da excelência condena-se à irrelevância. Reintroduzir o mérito como eixo estruturante não é uma escolha ideológica — é uma necessidade estratégica.
Tudo começa pela educação. O Brasil de daqui a vinte anos está sendo decidido hoje, silenciosamente, nas salas de aula. A educação pública de qualidade não é apenas uma política social: é o pacto civilizacional de uma geração com o seu próprio futuro. É dela que emergem trabalhadores, profissionais e líderes. A escola privada pode mitigar desigualdades no curto prazo; a escola pública define o destino coletivo.
Isso exige mais do que investimento. Exige recuperar a centralidade do professor como autoridade intelectual, estimular a competitividade educacional e rever mecanismos que desincentivam o esforço e diluem o desempenho. Num mundo marcado por uma aceleração tecnológica sem precedentes, o advento da inteligência artificial elevará a competição global a uma escala quase implacável. Países que não formarem talento estarão, simplesmente, fora do jogo.
O mesmo raciocínio deve aplicar-se ao Estado. O funcionalismo público precisa estar sujeito a critérios permanentes de avaliação. A estabilidade não pode significar imobilismo. Progressão e permanência devem refletir mérito, desempenho e compromisso com resultados. O Brasil não carece de Estado; carece de um Estado que funcione — e que funcione bem.
A corrupção, por sua vez, exige uma abordagem menos retórica e mais estrutural. É necessário alinhar incentivos: remuneração digna combinada com penalidades severas para desvios de conduta. A integridade institucional não pode ser exceção; deve ser regra. Corrupção não é apenas falha moral — é um mecanismo de sabotagem nacional.
Mas há uma outra chaga, mais visível e mais sentida: a insegurança pública. Não é aceitável que cidadãos saiam de casa sem saber se retornarão em segurança. Um país onde o medo organiza o quotidiano não é uma nação funcional — é um território em tensão permanente. Segurança não é promessa eleitoral; é pré-condição civilizatória.
Leis precisam ser cumpridas, decisões executadas e sinais inequívocos enviados à sociedade. A previsibilidade da punição — dentro do Estado de Direito — é o único antídoto eficaz contra a banalização do crime. Onde o Estado hesita, a desordem prospera.
No plano político, o diagnóstico é igualmente desconfortável. Democracias elegem carisma, narrativas e promessas; raramente elegem competência. Mas um país que insiste em escolher mal não pode esperar governança de qualidade. O Brasil precisa de líderes que pensem em décadas, não em eleições; em estruturas, não em slogans.
Se essas condições forem atendidas, o Brasil poderá, enfim, enfrentar seus gargalos históricos. A reconstrução da infraestrutura — ferrovias, rodovias, logística integrada — deixará de ser entrave e passará a ser vantagem competitiva. O país não precisa de reinventar-se; precisa de organizar-se com seriedade.
O melhor momento para plantar a árvore pode ter ficado no passado. Mas o segundo melhor momento ainda está ao nosso alcance. A questão é saber se, desta vez, ao comemorarmos 526 anos, o Brasil terá a coragem de plantar — ou se continuará, como tantas vezes antes, a discutir a sombra de árvores que nunca decidiu cultivar.

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