
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 09/04/2025, às 08h07
O Brasil enfrenta um momento crucial em sua trajetória econômica e comercial. A estrutura atual do Mercosul, concebida como um mercado comum, tem se mostrado mais um fórum político do que um verdadeiro mecanismo de dinamização econômica. A ausência de uma agenda concreta de crescimento e a rigidez na negociação de acordos comerciais com terceiros têm limitado as oportunidades de seus membros, inclusive o Brasil. Para que o país avance, torna-se necessário um passo atrás: transformar o Mercosul em uma área de livre comércio, devolvendo aos Estados-membros a autonomia para firmar acordos comerciais de forma independente e estratégica.
Neste novo contexto, uma região que deveria ocupar lugar central na estratégia comercial brasileira é a ASEAN — a Associação das Nações do Sudeste Asiático — formada por Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Singapura, Tailândia e Vietnã. A ASEAN reune cerca de 688 milhões de habitantes e um PIB nominal que ultrapassa os US$ 3,8 trilhões, posicionando-se como a quinta maior economia do mundo. Essa região tem conseguido consolidar uma estrutura de cooperação econômica altamente eficaz, inclusive superando, em dinamicidade, a própria União Europeia. Os acordos intra-regionais, a flexibilização comercial e a complementaridade produtiva transformaram a ASEAN em um centro pulsante da economia global. Além disso, a diversidade entre seus membros não impediu avanços significativos. Pelo contrário: a coesão política e a pragmática abertura comercial deram à ASEAN protagonismo real no século XXI — tanto no plano econômico quanto no geoestratégico.
O Brasil, no entanto, continua preso a uma lógica comercial excessivamente voltada ao Ocidente, especialmente à União Europeia e aos Estados Unidos. Décadas de negociação de um acordo comercial entre Mercosul e UE revelaram não apenas lentidão institucional, mas também um descompasso entre as ambições brasileiras e a disposição europeia de estabelecer uma parceria verdadeiramente equilibrada. Em vez de oportunidades robustas, o que tem sido oferecido ao Brasil são concessões marginais, insuficientes para impulsionar a transformação de sua estrutura produtiva e comercial. A Europa, com seu crescimento estagnado e uma visão cada vez mais protecionista, não oferece ao Brasil o ambiente de expansão necessário para o salto de desenvolvimento que o país precisa. O tarifaço anunciado por Donald Trump em abril de 2025 dispensa maiores justificativas quanto à inviabilidade de um aprofundamento comercial com os Estados Unidos em bases vantajosas.
A Ásia, por outro lado, já é o centro gravitacional do dinamismo econômico mundial. E é importante lembrar: não se trata apenas da China. A revolução econômica asiática é regional. O Sudeste Asiático se tornou um polo industrial, tecnológico, logístico e comercial de escala global, com uma população numerosa, uma classe média crescente e demandas crescentes por alimentos, energia, infraestrutura e serviços — áreas em que o Brasil tem vantagens comparativas significativas. Uma aproximação estratégica com a ASEAN poderia abrir portas para investimentos, transferência de tecnologia e aumento substancial das exportações brasileiras de produtos com maior valor agregado.
Para ilustrar o potencial dessa parceria, vale destacar que, em 2024, a ASEAN foi o quarto principal destino das exportações brasileiras e um dos principais fornecedores ao Brasil, superando inclusive o Mercosul. O fluxo comercial bilateral atingiu US$ 37 bilhões naquele ano. Especificamente no setor agropecuário, as exportações brasileiras à ASEAN incluíram farelo de soja, açúcares e melaços, soja em grãos, algodão, carnes e milho.
O grande desafio do Brasil está em enxergar essa nova realidade. O país continua preso a práticas comerciais do passado, sem compreender a disrupção estrutural que molda o século XXI. O mundo mudou, e o Brasil precisa mudar também. Permanecer ancorado a estruturas obsoletas, como um Mercosul engessado e uma relação subordinada à Europa e aos Estados Unidos, representa um risco claro de estagnação. Para aumentar a renda per capita, gerar empregos de qualidade e ter voz relevante nas decisões globais, o Brasil precisa romper com a inércia, adotar uma postura mais aberta, mais ousada e mais inteligente.
A construção de uma nova estratégia de inserção internacional exige visão. Exige reconhecer que o eixo do poder econômico global está se deslocando e que o Brasil precisa posicionar-se com pragmatismo diante dessa transformação. A ASEAN oferece uma oportunidade concreta e promissora — e ignorá-la é abdicar de um futuro de maior protagonismo e prosperidade.
O Brasil não pode se contentar em ser apenas fornecedor de commodities brutas para essa nova economia. O Brasil precisa parar de esperar convites e começar a ocupar seu lugar. Protagonismo se conquista com presença estratégica, não com hesitação.
O século XXI não perdoará os que permanecerem sentados.

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