
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 04/03/2026, às 09h04
A atual presidência de Donald Trump marcou uma transformação qualitativa na posição global dos Estados Unidos, deslocando o país do papel tradicional de gestor imperfeito da ordem internacional à posição paradoxal de principal fonte de risco sistêmico. O perigo, neste caso, não emana de um inimigo declarado ou de um revisionismo explícito, mas da conversão do antigo árbitro das regras em um jogador imprevisível, movido por impulsos domésticos, uma moralidade volátil, ressentimentos políticos e cálculos eleitorais.
Essa mutação transformou o poder norte-americano em instrumento de punição, e não de coordenação; em ameaça transacional, e não em liderança previsível. Quando a política externa passa a funcionar como extensão da política interna, e o “custo de obedecer” é medido em tarifas, sanções e humilhações públicas, a segurança internacional deixa de ser uma construção coletiva e se torna um contrato de curto prazo, revogável a qualquer instante.
O resultado é uma nova geopolítica do medo. Aliados passam a tratar garantias como mercadorias, adversários veem compromissos como blefes, e países médios constroem redundâncias estratégicas, diversificando comércio, energia, tecnologia, moedas e cadeias de suprimento. A ordem internacional, já frágil, converte-se em arena de cálculo imediato, na qual a pergunta central deixa de ser “qual é a regra?” e passa a ser “qual é o humor de Washington hoje?”.
A era Trump intensificou três mecanismos de perigo: a institucionalização da imprevisibilidade, com acordos tratados como descartáveis; a erosão do direito internacional como linguagem comum, corroendo a confiança mínima para cooperação; e a legitimação do “golpe preventivo” — econômico, tecnológico ou militar — como prática ordinária, como observamos no caso da atual guerra no Irã. Quando tudo pode ser convertido em guerra, tudo passa a ser justificável.
Nesse ambiente, o país mais perigoso não é o mais fraco, mas o mais poderoso quando decide agir sem freios, previsibilidade ou preocupação com precedentes. A hegemonia, ao abandonar a autocontenção, exporta volatilidade. Trata-se do “efeito espelho”: quando o centro relativiza normas, a periferia aprende a fazer o mesmo.
Esse contexto recoloca com força a questão nuclear. A erosão dos tratados, o enfraquecimento institucional das Nações Unidas e o enfraquecimento do império da lei recolocam, silenciosamente, a opção nuclear como seguro estratégico de última instância, levando países a reconsiderarem suas margens de autonomia e dissuasão. O Brasil deveria retomar, seriamente, o seu programa nuclear para fins de proteção da sua soberania.
A guerra econômica, implementada por Washington para pressionar governos, reconfigurar alianças e disciplinar comportamentos, transformou o dólar e o sistema financeiro global em armas geopolíticas de uso constante. A economia deixou de ser apenas espaço de interdependência e passou a ser campo permanente de confronto.
Nesse cenário, a desdolarização emerge não como gesto ideológico, mas como resposta racional à instrumentalização do sistema financeiro. Diversificar reservas, ampliar o uso de moedas locais e fortalecer sistemas alternativos de pagamento significa reduzir vulnerabilidades, não promover rupturas. O paradoxo é claro: ao transformar sua moeda em arma, Washington acelera a erosão de sua própria centralidade.
Para o Brasil e o Sul Global, a lição é severa. A tradição diplomática multilateral é um ativo, mas não pode significar imobilismo. Em um mundo em que a força — militar, tecnológica e financeira — volta a organizar hierarquias, a discussão sobre capacidades estratégicas precisa ser enfrentada com maturidade, sem tabus nem voluntarismo.
Países sem margem estratégica tendem a tornar-se objetos, não sujeitos, da política internacional. O maior risco não é uma guerra inevitável, mas a banalização da coerção como método. A presidência Trump não inventou o uso duro do poder; ela o desinibiu e ensinou que o improviso pode ser política de Estado.
Para o mundo, isso significa um futuro mais fragmentado e menos governável. Para os próprios Estados Unidos, representa a tragédia clássica do império que confunde temor com respeito: ao impor obediência, perde confiança; ao exigir lealdade, produz distância. A segurança no século XXI dependerá menos de promessas e mais de capacidades, menos de palavras e mais de autonomia.
Quando o antigo guardião se converte em risco, a maturidade estratégica deixa de ser luxo e torna-se necessidade existencial. Nesse novo ambiente, instrumentos como a desdolarização e a capacidade dissuasória nuclear têm-se tornado, para muitos países, componentes centrais da soberania. O risco para os Estados Unidos é de estes instrumentos se tornarem as únicas alternativas para o Sul Global.

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