
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 09/11/2022, às 08h53
Encerrado o ciclo eleitoral brasileiro – controverso no resultado em razão da elevada polarização política brasileira, com um presidente eleito com uma margem mínima de um porcento de legitimidade a maior – é hora de pensar os próximos passos de uma política externa de Estado, que esteja acima do cenário de debate político inócuo.
É fundamental que a nova administração defina, de modo claro, quais são os interesses de longo prazo da Política Externa Brasileira, particularmente considerando as mudanças significativas que vêm ocorrendo no cenário internacional, que transformarão o mundo atual de modo irreversível nas próximas décadas e séculos.
Embora haja conflitos aqui e ali – e a Guerra da Ucrâniajá se aproxima do seu primeiro ano de duração – é fato que o mundo tem atravessado um período de turbulência. A administração Biden, que contrariamente àquilo que se esperava em contraposição a Donald Trump, revelou-se mais belicosa, ideologicamente provocadora em suas ações globais, e propensa a incorrer maiores riscos em sua assertividade. Nestes dois anos do governo Biden, houve, particularmente, dois momentos graves, com perspectiva real de uma possível guerra nuclear: no início da Guerra na Ucrânia, resultante da equivocada expansão da OTAN em área de influência russa, e a tensão causada pela visita de Nancy Pelosi a Taiwan, numa ruptura do histórico Princípio de Uma Só China.
Trump, que aventa a possibilidade – com boas chances – de retornar à presidência em 2024, logrou ser o presidente menos belicoso da história recente dos Estados Unidos, particularmente por adotar uma perspectiva mais pragmática das relações internacionais, com objetivos comerciais exercendo um papel condutor nos relacionamentos bilaterais e multilaterais. Para Trump, a questão ideológica tinha uma posição de menor relevância quando contrastada à questão comercial, uma postura contrária a Biden.
O elemento fundamental de uma nova ordem mundial é a interdependência sem precedentes, com um mundo cada vez menor, mais próximo e mais interligado. Ao estabelecer a sua Política Externa para as próximas décadas, o Brasil não pode viver fisicamente no século XXI e manter uma mentalidade presa ao passado, com uma subserviência intelectual e ideológica à Europa e Estados Unidos ou uma mentalidade baseada numa estrutura de poder global dos anos da Guerra Fria que vão, rapidamente, se diluindo. Com a multipolarização mundial e a globalização, a expectativa é de melhoria no nível de vida da população global, o que deveria, em princípio, ampliar o espaço para os países em desenvolvimento na governança global.
O Brasil precisa consolidar um planejamento estratégico que impulsione os seus interesses globalmente, mantenha cooperação nos casos que lhe são favoráveis e relegue a segundo plano parcerias que não lhe sejam convenientes ou estejam fora do seu foco de atuação. E, sem dúvida, a Ásia, particularmente a China, assumem um papel fundamental no processo de crescimento global do País. Não há dúvida de que na construção de uma nova ordem mundial, o Brasil deve atuar em conjunto com a China, em particular, que é a potência em ascensão, para liderar o processo de reforma do sistema de governança, buscando maior equidade e justiça. Uma visita imediata do presidente eleito à China é essencial para fortalecer o relacionamento bilateral, um tanto relegado a um segundo plano pelo atual governo.
Embora as condições globais apresentem turbulências nos próximos anos – alguns preveem até mais guerras e pandemias – é fundamental que o Brasil saiba rapidamente aproveitar as condições internacionais favoráveis para, identificando a mudança dos tempos e as grandes tendências, com particular atenção ao quadro econômico mundial, antecipe-se e realize os ajustes domésticos e externos necessários para melhor aproveitar cada situação.
A consolidação do Brasil como potência regional, particularmente na América Latina, é essencial para tornar o nosso entorno mais favorável às necessidades do País, que, historicamente, tem sido um líder sem seguidores na sua própria região. Os cumprimentos iniciais à eleição do novo governo – que podem dar a impressão de uma aceitação de uma liderança do Brasil no bloco regional – logo esvanecerão à medida que os países da região notarem a reduzida capacidade de influência econômica do Brasil na região, particularmente na redução de recursos disponívels nos próximoa anos.
O Brasilprecisa descobrir o mundo, particularmente a Asia, assim como a diplomacia brasileira. Não será do circuito Elizabeth Arden – tão apreciado pelos diplomatas – que advirão as melhores oportunidades para o crescimento do País. Sem dúvida, dois circuitos serão cada vez mais importantes ao Brasil: Marraquexe, com uma compreensão aprofundada dos mercados árabe e africano, e Shanghai, com um aprofundamento intenso dos mercados asiáticos, particularmente a China, com quem as possibilidades de ganho do relacionamento bilateral são exponenciais.
Foi na administração petista de Dilma Rousseff que o Brasil foi chamado de Anão Diplomático por sua incapacidade de ter, efetivamente, uma ação internacional à altura do peso que o País deveria ter. Espera-se que o governo petista, que embora apresente o mesmo perfil ideológico, encontre um novo rumo, o mais rapidamente possível, sob pena de não o fazendo, ser qualificado, novamente, com um país muito aquém de suas possibilidades e destino.

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